domingo, 28 de dezembro de 2008

Dias de Festas

O pequenino traz a bonança de séculos de insanidade. Porquê? Da mensagem - tão breve e tão pequena - reduz o conceito a palavras vagas, sem sonoridade, ausentes de um povo que já deixou de ser seu. Nesse dia, o espírito permanece, a procura assola a rua despida de inverno e crente de Natal. Nada mais impede a nostalgia pelos bens recuperados, alegria momentânea - sazonal como o tempo - pelos pequenos luxos das grandes festas. Os que ficam pelo caminho têm a alma preenchida pelo sonho - sincero ou não, elouquente ou sussurrado - que o castigo pertence a todos e não necessita de ser adiado. Dias de Festas... Possuem a sua cor, o seu brilho, trazem da leveza o peso burocrático de carinhos pagos. Todos o reclamam, ninguém ousa contestá-los. Porquê? Talvez por se acreditar - bem lá no funfo, bem lá na alma - que, de outra forma, nada teria sentido, nada se arrecadaria de diferente a tantas e tantos dias de outras labutas enganosas. Por gostar se faz nascer, criar e educar, fruto de maior ou menor brio. Mas ele nasce, ele cresce e ele age. O pequenito assim o quis. Da bondade e do amor, e outros conceitos básicos tão hoje na moda, pelo menos esses dias de calor que a época traz em voga. A mensagem vai-se repentindo...assim, de mansinho...pelo menos em certa quadra.




Feliz Natal a todos e que o próximo ano traga a concretização de todos os vossos pequenos sonhos.


Cláudia

sábado, 20 de dezembro de 2008

Espelho

em certo sentido


aquilo que vejo


é rosto fiel da minha verdade;


ora descubro ora prevejo


que mais que o meu mundo


procuro a realidade




de vez em vez, de dia em dia


a mente não recupera do que a alma persegue,


ora me escuta ora teme


que a ambição maldita,


que alguns erguem,


não passa de taça perdida


daqueles que por mim agem




de dentro,


lá bem do fundo,


nada do que sou tem significado,


de mim para mim um beijo


de ti para ti sorriso vago,


pequenos detalhes de uma existência conjunta


que mais que o nome


procura,


defunta,


meus tesouros de certos momentos




arredada a soberba e a falcidade


em mim decai


desalenta


a minha própria precariedade;


nada do que sou me satisfaz


ou procria certa astúcia


que em viril fervor de força bruta


errei por errar


soltando bandeira alheia,


sendo em um segundo


uma vida inteira




e agora,


que faço?


percorro caminhos mil


e de milhentas performances


tracei expressões de vã glória


e de vã actuação,


resguardei gritos abruptos


de caprichosa convulsão,


perdi depois tais atributos


que Deus me concedeu


em união




ainda hoje prevejo


que na honestidade não fui herdeira,


virgem de branco e santidade temerária,


aos outros confesso


a imagem por mim traçada




lá no fundo sou o espelho


de uma alma penada




lá possuo tudo


daqui não tenho nada

Finalmente

Devo ter sido por aí...a última pessoa a vê-lo!!




Cena «Lay all your love on me»

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

a preparar a viagem....



Já só falta um mês :)

sábado, 13 de dezembro de 2008

7 maravilhas de origem portuguesa

A sete maravilhas de origem portuguesa começam em breve a ser votadas. A lista tem susictado várias polémicas, visto ter-se baseado na lista da UNESCO, mais política do que histórica. Mesmo assim vale a pena votar, nem que seja para lembrar ao mundo em geral que antes dos espanhóis se meterem ao mar já nós por lá andávamos há um par de anos.




Ver site:www7maravilhas.sapo.pt

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

No mundo da Mulheres

Ao entrar num videoclube procuro com frequência fazer um exercício de descoberta. Conheço os meus gostos, sei que tipo de histórias me atraem e as que não me dizem absolutamente nada, mas não rara é a vez em que os meus palpites me saem frustrados e a desilusão é sentida no vazio da carteira. Talvez seja por isso que muitas vezes evito de ir ao cinema ver aquela película que até parece interessante, mas não me arrebata ou impele a descobrir sem demora.

De uma forma geral, gosto do chamado "filme para mulheres". Preconceitos à parte, fazem-me rir. Quase sempre com casórios à mistura, são aquele tipo de cinema que costumava ser exibido aos domingos à tarde, pelo menos nos tempos em que eu estava em casa aos domingos à tarde. Descontraem, têm um final feliz e o argumento - se bem escrito - é suficiente para nos manter inspirados durante uns dois ou três dias.

Assim de cabeça recordo uns quantos, quase todos com a Meg Ryan a protagonizar e alguns com o Tom Hanks na contracena. Provavelmente seja essa a razão pela qual a melhor definição que encontro para este género de histórias se sintetise no seguinte: uma rapariga romântica, mas meio perdida, com crises de consciência; um engatatão que ainda não descobriu o verdadeiro amor; uma situação insólita que une os dois. Com pequenos ou grandes desvios, a norma assente customa ser esta.


No outro dia aluguei um dessas comédias, curiosamente com a Meg Ryan num tão aguardado regresso. Em No Mundo das Mulheres, esperava eu, iria encontrar alguns destes ingredientes, preparando-me para hora e meia de gargalhadas bem dispostas. Lá pelo meio acho que me deu a vontade de chorar...nem sei bem.

A ideia é excelente. Quatro gerações de mulheres passando pelo quotidiano de um daqueles tipos com enorme carisma e vocação para deixar qualquer exemplar do sexo feminino com vontade de dissertar sobre as suas mágoas, alegrias e rotinas, quase sem se aperceberem disso. Uma velhota convencida quem a morte está próxima, uma mulher de meia idade que enfrenta um doença e a traição do marido, uma adolescente em crise, uma criança bastante perspicaz. Ah, ainda há aquela outra jovem que não sabe o que quer da vida. Pelo meio, o afastamento entre mães e filhas e o respectivo retorno, sempre ante o olhar daquela figura externa que as tenta compreender a todas sem se conseguir sentir próximo de nenhuma delas. Para uma é demasiado velho, para outra é demasiado novo. Nenhuma parece certa do que deve fazer ou de como agir, procurando todos uma opinião que respeitam mas que não podem seguir.

Surpreendeu e decepcionou, não ri metade do que queria rir. Sendo uma ideia boa, perde-se em promenores mal desenvolvidos e circunstâncias vagas que parecem a nada conduzir. Vale o esforço e o visionamento, capaz de conseguir uma identificação por parte de todas as idades. A velhota na sua solidão, a mulher adulta na sua tristeza, a jovem no seu desvario, a adolescente na sua rebeldia, a criança no seu mundo cor de rosa.

Filme para mulheres ou não, é de aconselhar também a homens.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

sonata sem nome

Só para me lembrar que existo
que não decaí numa insignificância absurda
por muito que me permita
em nada mais sei
que a Terra muda


olhar por olhar o solo
da constância aniquilante
do ardor mesquinho
cresce, aparece e anseia
em vão se quer controlar o destino

depois da mágoa, depois da recodação
depois de dor, depois de uma estranha paixão
os dias correm em velocidade tamanha
que me questiono se é certa
esta minha exaltação.
o dia de sol já sobe
e desce enfim a penumbra
do noveiro se povoa agora
uma sensível inconstância futura

Ouve-me
sussurro-te detalhes de mim
estou só
e desejas-me assim...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Hino à Razão



de Antero de Quental




Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece,
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões,
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

Ponto de Interrogação

Novo livro de J. K. Rowling
Harry Potter voltou? Não exactamente...


02.12.2008 - 15h58

Nuno Aguiar, com Reuters

in Público


No Verão passado, quando a saga Harry Potter terminou finalmente, uma onda de tristeza espalhou-se por miúdos e graúdos em todo o mundo. A história tinha chegado ao fim e Harry, Hermione e Ron não voltariam a entrar nas vidas dos leitores. Quinta-feira, esta ausência poderá ser, de certa forma, compensada com o lançamento de "Os Contos de Beedle, o Bardo", o último livro de J. K. Rowling sobre o universo Harry Potter, cujos lucros reverterão para uma instituição de caridade.Para os mais aficionados, é preciso alertar que não se trata de uma continuação das aventuras do jovem feiticeiro. "Os Contos de Beedle, o Bardo" é uma colecção de cinco contos de fadas que surge no último livro da saga, “Harry Potter e os Talismãs da Morte”, deixado por Dumbledore a Hermione. A única história revelada das cinco é “O Conto dos Três Irmãos”, crucial para a execução da última missão de Harry na sua demanda contra Lord Voldemort.Um bom indicador do sucesso que este novo livro pode vir a ter junto do público são os quatro milhões de dólares pelos quais foi leiloada há um ano uma das sete cópias ilustradas e escritas à mão de "Os Contos de Beedle, o Bardo". O comprador foi a Amazon, que se prepara para lançar 100 mil edições de coleccionador, vendidas a 100 dólares cada, e um total de 7.5 milhões cópias da edição normal. A Bloomsbury fará a distribuição do livro da Grã-Bretanha, enquanto a Scholastic ficará responsável pelo mercado norte-americano. Depois de cobertas as despesas, as editoras e distribuidoras concordaram em doar os lucros para a caridade. Quem opte por vender com descontos, uma prática comum nos livros de Harry Potter, terão de o fazer com prejuízo. No catálogo de venda da cópia leiloada, Rowling escreveu: "’Os Contos de Beedle, o Bardo’ é uma destilação dos temas encontrados nos livros de Harry Potter, e escrevê-lo foi a mais maravilhosa maneira de dizer adeus a um mundo que amei e em que vivi durante 17 anos."Com uma fortuna avaliada em 660 milhões de euros, J. K. Rowling é a escritora mais rica do mundo e parece já não ter interesse em aumentar uma fortuna, já por si, considerável. Com este último livro espera conseguir arrecadar alguns milhões para financiar a organização “The Children’s High Level Group” da qual é co-fundadora com a deputada europeia Emma Nicholson, e que foi criada para proteger e apoiar os direitos das crianças em instituições de acolhimento na Roménia, Moldávia, Arménia, Geórgia e República Checa.Em Julho de 2007, “Harry Potter e os Talismãs da Morte” vendeu 11 milhões de exemplares nas primeiras 24 horas, tornando-se no livro mais rapidamente vendido de sempre, ultrapassando o seu predecessor “Harry Potter e o Príncipe Misterioso”. Os livros da série já venderam um total de 400 milhões de cópias, foram traduzidos para 67 línguas e lançaram as bases para oito filmes (o último livro será dividido em duas partes). Os cinco já lançados deram um lucro de 4.5 mil milhões de dólares.Os ávidos fãs de Harry Potter podem já ficar descansados, porque provavelmente "Os Contos de Beedle, o Bardo" não será a última oportunidade para espreitar o mundo de magia do jovem feiticeiro. Rowling já afirmou estar a planear uma enciclopédia da série, cujos lucros também iriam reverter para a caridade.

Reticências


Nobel alerta para distorções nas respostas à crise financeira e à crise climática


03.12.2008

AFP, PÚBLICO


O presidente do Painel Intergovermental para as Alterações Climáticas (IPCC) e Nobel da Paz em 2007, Rajendra Pachauri, diz-se admirado com as distorções nas respostas a alguns dos maiores problemas internacionais, nomeadamente com o facto de se investirem milhões de dólares para salvar um sistema bancário em crise, quando a luta contra a pobreza ou contra as alterações climáticas não conseguem mobilizar fundos.
Numa entrevista à AFP, à margem da conferência das Nações Unidas sobre o clima a decorrer em Poznan, Polónia, até dia 14, Pachauri fala de um verdadeiro “desafio à lógica”. “É verdadeiramente estranho o que se passou nestes últimos dois, três meses”. “Desafia toda a lógica se pensarmos no dinheiro gasto nestas acções de resgate, assim tão rapidamente, sem interrogações”, comenta.Pachauri lembra, em comparação, a adopção em 2000 pela ONU dos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio, relativos à redução da pobreza e das desigualdades no mundo. “Quando os objectivos foram pensados e planificados, o antigo Presidente do México Ernesto Zedillo, que presidia o comité, fez uma modesta proposta de 50 mil milhões de dólares (cerca de 39 mil milhões de euros) por ano em favor das regiões do mundo que simplesmente não tinham os meios para cumprir esses objectivos. Mas todos fizeram chacota e ninguém teve o menor gesto”.“Hoje, as agências e organizações que são responsáveis pela sua própria queda e pela falência de todo o sistema beneficiam de montantes como 2.700 mil milhões de dólares (cerca de 2,1 mil milhões de euros)!”.Para Rajendra Pachauri, estes casos ilustram a “distorção” do sistema económico.O responsável pelo IPCC não esquece ainda as emissões de gases com efeito de estufa, acusadas de serem as responsáveis pelas alterações climáticas. “Se não agirmos agora, os impactos das alterações do clima vão agravar-se progressivamente até um ponto – que já é o caso em algumas regiões do mundo – em que os prejuízos serão consideráveis”.A altura é a mais indicada para inverter padrões de acção. No âmbito da crise económica, “vai ser realizada uma vasta reavaliação das formas de crescimento económico”. “Acredito que iremos assistir a uma grande mudança para uma utilização mais eficiente dos recursos naturais e de energia”.A conferência em Poznan, até 14 de Dezembro, deve preparar as negociações de um novo acordo contra as alterações climáticas, que suceda ao Protocolo de Quioto, que expira em 2012. Este acordo deverá estar concluído no final de 2009, em Copenhaga. Desta vez deve incluir os Estados Unidos, que rejeitaram ratificar Quioto.Rajendra Pachauri espera encontrar-se o mais rápido possível com o Presidente norte-americano eleito Barack Obama para lhe dar conta do seu sentimento de urgência. “Se puder estar com ele dez minutos, é tudo o que eu preciso”, garante.O IPCC é um organismo científico criado em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente para disponibilizar aconselhamento independente sobre as alterações climáticas.

Os contos da Madrugada - sol sombrio


Ali não existiam flores. Nem mata, nem arvoredo. Apenas o gosto cinzento e frio do aço e do cimento, grandes arranha-céus de babel sacrilégio. Ali não aprendera a ser feliz, nem descobrira como amar o insignificantes, os pequenos tesouros sem máculo do dia a dia. Por isso partira. Partira na esperança de que nas terras de Clementina os ventos mudassem e lhe oferecessem a alegria perdida em anos e anos de solidão vazia de sol, vazia de si mesma. As histórias de fantasmas não a assustavam, nem tão pouco impediam de sonhar coma sua possibilidade, a sua crença.
A amiga contara: em certas noites, de lua semi-iluminada, estranhos eventos despuletam a crueldade da terra. Ninguém acredita, todos os temem. A fonte costuma guardar esses segredos perdidos na eternidade. Tudo o resto se transforma em lenda, mito que afugenta a criançada, a bonança e a misericórdia.
Clementina contara...e não voltara...
Aos poucos, o estranho sonho de procurar a mata das histórias sem nexo ou solução haviam-lhe despertado o desejo da mudança e a procura por um sol mais sombrio, mas menos punitivo. Uma terra de velhas e janelas indiscretas, com vidas que se multiplicavam consoante as vozes que sussurravam em ladainha benedita. Porquê temê-lo? Talvez se a felicidade existisse ali, nessa conversa que a inveja despuletava e a diferença tornava bravia. Por muito que viesse a sofrer, a desgraça não lhe traria muito mais a solidão urbana, opaca e repleta da ambundância saciada. Era tempo de mudança.

Naquela tarde, pegou na mala de viagem esquecida debaixo da cam desdo os tempos da universidade, pegou no gato adormecido na alcofa de penas, recolheu os seis ou sete livros ainda por ler e partiu. No trabalho uma carta de despedida, sem aviso ou notificação. Dos amigos um telefone sempre silencioso, vozes que esperaria nunca mais ouvir. Com outros sorrisos, as fotogafias recolhidas num álbum de poucas páginas. Apenas o essencial. Apenas o fundamental.
A viagem seria longa e, tão cedo, não traria regresso. Quem sabe? Talvez ela mesma se afundasse naquela madrugada misteriosa que inspirava tantos receios, tantas lendas de rancor. Também tinha os seus mistérios. Aquela atitude era um deles. Quem sabe se a tal fonte não a sugaria também, não transformaria a sua imagem, a sua delinquência, numa lenda perdida entre a crença popular. Assim, pelo menos, viveria.

domingo, 30 de novembro de 2008

A Norte a Chuva Parou (1a)

A revolução saiu à rua.

Que podia ela esperar? A agitação precária da pobreza espalhada pela alma? Ser superior significa não se afectar, adaptar, viver. Ela viveria. Com ou sem fé nos ideias que a plebe defendia com a vida, com a razão, com a cegueira branca. O lugar dos audazes é junto dos vencedores, justos ou não. Sempre assim fora, sempre assim se resolvera o grande dilema da humanidade. E a história continuara, com ou sem momentos de glória, com ou sem honestidade.

Naquela tarde, no vazia sobrelotado as ruas, caminhou surda aos apelas das varandas engalanadas. No dia seguinte voltaria ao trabalho, recostar-se-ia na cadeira de lona da cafetaria e apreciaria o espectáculo da estupidez e idiotice humanas. Nada lhe acutiliva e incendiava o humor que dois bobos descutindo sobre assuntos ímpares sem solução. Um atirando lama à gargante do outro, um querendo encontrar luz num raciocínio onde o outro só vislumbrava sombras. E, no fim, o que ficava? Cada um com a certeza convicta de que lutara até à morte, até ao extremo de si para difundir a verdade, mas existem simplesmente tubérculos imundos que não a querem escutar, que não a conseguem ouvir. O entendimento é um dom sagrado, só obtido por alguns. Quer por nascimento quer por inegável inteligência.

E ela? Esperaria, como sempre esperara, que as voltas do mundo lhe redefinissem o lugar. Apática, incólume, superior às baixezas do bicho homem, com paixão a mais e orgulho a menos.

A Norte a chuva parara. Era o momento de agir.

sábado, 29 de novembro de 2008

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Uma estranha forma de ser

Há pessoas que nos marcam, para o bem ou para o mal. Nem sempre o motivo que nos move a recordá-las é passional ou resulta de uma emoção reprimida, sendo, pelo contrário, diversas vezes catapultado por um momento do quotidiano, uma cena de um filme ou o parágrafo de um livro. Os que nos disseram, a forma como nos trataram, pequenas descrições de si próprios que não entendemos e se repercutem na memória pela falta inexorável de uma resposta satisfatória aos nossos porquês. Porque o disseram? Porque agiram assim? Porque razão eu não lhe soube responder?
No meu primeiro ano da faculdade tive uma professora um tanto ou quanto para o arrogante. Isto não é novidade nenhuma - quantos de nós não os poderão contar pelos dedos? - mas esta marcou-me de uma forma especial. Não foram as aulas, nem tão pouco a matéria, muito menos a nota, a qual nunca pensei sequer contestar. Era uma senhora dos seus quarenta anos, bastante jovial e dinâmica por sinal, mas haviam atitudes nela que não me agradavam e me despuletavam uma certa antipatia por aquela personalidade forte mas pouco crédula mediante convicções alheias.
Recentimentos à parte! Um dia perguntou-nos porque razão líamos bibliografias. Da minha parte, silêncio. Com excepção dos pequenos resumos bibliográficos nas bordas dos livros de história e português no secundário, esse é um género de literatura que nunca me despertou relativo interesse. A razão ainda hoje não sei descrevê-la com lógica, mas permanece-me a sensação que, com excepção dos grandes momentos da vida, que utilidade tem ler dissertações tendenciosas sobre determinada personagem? Talvez deva culpar a minha professora de português do 10º ano, cujo leccionamento da crónica de D.João I me deixou com muita má impressão deste tipo de narradores. Com rodeios ou sem eles, o facto é que não soube responder, limitando-me a ouvir os comentários dos meus colegas.
Foram vários, mas a resposta era mais ou menos a mesma: para compreender a obra! Assenti, concordando com a tese, mas com a ligeira impressão de que não era bem aquilo que a professora procurava. E não era de facto! Com um sorriso maroto e boa disposição lá desvendou, com alguma complacência, que, no seu entender as pessoas liam bibliografias para saberem as cusquices. Risota geral! Sim, tem lógica. Por muito que nos interessemos por certos momentos que nos ajudam a entender melhor um livro, conhecer o autor nada mais é que uma curiosidade voyer por o admirarmos ou detestarmos. Se nenhum dos anteriores casos se verifica, que interesse tem conhecer a fundo uma personagem?
Lembro-me que nos passou para as mãos um pequeno texto sobre a vida de Inês de Castro, tão melindrada e romantizada nesta cidade. Contudo, mesmo depois de toda aquela explicação e ideias preconcebidas do que é ou devia ter sido o amor de Pedro e Inês, a pergunta da professora não me saiu da cabeça e mesmo hoje, já com alguns anos passados, me continuo a recordar com frequência dela. Para o mal ou para o bem, ainda não encontrei a minha resposta.

Há uns quinze dias aproveitei um copão de 10euros nas livrarias Bertrand e comprei um livro que há muito me namorava os olhos. A obra, ou melhor, o conjunto de obras tratam-se dos contos completos de Truman Capote, o escritor norte-americano mais conhecido pelo seu best-seller A Sangue Frio e recentemente lançado à ribalta por um filme oscarizado, Capote, e outro que teve o azar de passar quase ao mesmo tempo nas salas de cinema, mas sem prémios, Infame.

Li A Sangue Frio no ano passado, leitura obrigatória numa cadeira de jornalismo escrito. O comentário julgo tê-lo publicado na altura, perdido algures neste blogue que, consoante os períodos, vai tendo maior ou menor actividade. Não me recordo com certezas do que achava da obra antes de a ler. Lembro-me que o filme motivara a sua publicação desenfreada e o destaque em várias livrarias, mas não fora a imposição do professor provavelmente nem lhe teria prestado muita atenção. De resto, a biblioteca cá de casa vai aumentando a um nível assustador, de tal forma que a menos que a curiosidade leve a melhor os gastos estão seriamente limitados.

A leitura começou desconfiada, mas, a pouco e pouco, ganhou alguma substância. No fim já me derramava em lágrimas pelas vidas daquelas quatro pessoas tão cobardemente assassinadas, num leitura completa, plena, estimulante, tão envolvente que me envergonhei de nunca ter prestado a atenção devida ao autor. Pouco tempo depois era lançado Travessia de Verão, um romance inacabado de Capote, que eu li com sincera nostalgia por me recordar um peça dramática com uma história semelhante estudada no meu 12ºano.

Tanto neste último romance, lançado postumamente, como nos Contos Completos descobri-me, quase que de forma inconsequente, a ler as notas introdutórias do editor. Descreviam, basicamente, a vida de Truman Capote, tudo o que fez para subir na vida e o fim trágico ao qual, inadvertidamente, se deixou levar. Sim, eram cusquices! Mas, em certa medida, abriram o pano aos contos que de seguida devorei com inestimável interesse, tão repletos de desejo contido como de alguma mágoa, visões do mundo muito jovens mas já resultado de certa perspicácia, a mácula social que distingue os grandes narradores.

Truman admira a maldade, o que de mais profundo e negro existe em cada um. Admira também o lado belo, requintado, muitas vezes ignorante mas prático da vida. A capa que apresenta o livro é sinónimo dessa dualidade. Capote é-nos apresentado jovem, com um olhar fugidio, desconfiado, sozinho . A fotografia não nos intimida. Capta o nosso olhar desnudo e inquieto, aquele que procura respostas às perguntas mais cabais, mas que surgem invariavelmente ocultas. Quem é ele, porque nos observa assim, porque nos parece julgar? Uma sensação que nos trespassa, nos abandona à nossa transparência tão brutal, tão insignificantemente humana. E, daquela mesma forma atraente, compreendemos os seus contos, impelimo-nos a querer desvendar aquelas personagens, meio adoráveis meio hediondas, que nos acompanham por linhas e linhas de inconfundível satisfação.

Por isso perguntar, até que ponto o conhecimento da maldade e da elegância humana nos diz de nós próprios? Costumo dizer que quem trai é quem desconfia, nunca aquele que foi traido. No mesmo sentido, quem conhece a fundo a emoção mais negra é quem é capaz de a sentir. Os que com incoência olham o mundo, procurando o bom e o saudável que nele existe, pouco sabem, pouco compreendem e pouco são capazes de sentir. Talvez por isso os grandes génios se suicidem sempre...

Para conhecer Capote, em muito mais que a sua obra.

Livro: Contos Completos

Autor: Truman Capote

Edição: Sextante Editora, setembro de 2008



segunda-feira, 24 de novembro de 2008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

As minhas noites de Inverno


(clicar imagens para trailer)

Um Disponível para Amar americano (que eu consigo preferir por o final ser mais feliz)






Excelente impacto cénico e visual, se bem que me percorreu a sensação de estar a ver novamente a Maldição da Flor Dourada






Substituissem o Collin Farrel por este senhor, e o par de Miami Vice teria funcionado muito melhor







segunda-feira, 10 de novembro de 2008

a ler...

Título português: História da China

Autor: Stephen G. Haw

Editora: Tinta da China

Publicado: Outubro de 2008


Para conhecer a China, a sua longa história e desvendar um pouco a sua cultura, numa leitura fácil e acessível, sem deixar de ser completa. Esqueçam é as referências a Macau, porque este senhor ficou-se por Hong Kong e Taiwan...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Àomén



querer ouvir-te

sussurrar o meu nome,

agitação apaixonada

de um sonho

por viver...

tens a bacidade

de uma visão iluminada

por tudo o que representas

e não és


Percorrer

com ousadia

o meu inquieto consciente

constância bravia

do que se recusa

mas pressente,

as sílabas do mar onde naufragaste

tornaram-se ódio

depois de amor


No dia em que te conhecer

nada dirás para mim,

apenas o simples renascer

e o desconhecido numa folha de jasmim,

o perfume não será o teu

nem a tez

nem a bravura,

nada do que sei será meu

nem o olhar

nem a candura,

e aí saberei

que por fim encontrei

as poções que venho semeando

pois nada mais terei

que o sabor inconstante

do teu nome

domingo, 2 de novembro de 2008

Façam as vossas apostas

a expectativa é grande, mas o santo desconfia...


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A Tabuada do Tempo - Cristóvão de Aguiar


O primeiro olhar foi de desafio, quase de inveja pelas palavras ditas quase em sintonia com uma música de fundo, nunca presente mas sempre disperta. Depois veio a viagem, veio a lembrança, veio a presença por se estar a pisar os mesmos terrenos, as mesmas angústias. Ser-se ilha não é ser-se pequeno, é um estado de espírito que acompanha quem amou a terra onde nasceu e aprendeu a ser-se, a ver-se, diante de uma paisagem. Nos dias que se percorrem, saborando quase sempre a instabilidade do tempo, encarna-se uma audacidade também ela temperamental e procura-se um objectivo nas palavras do quotidiano.

Para ler com uma grande vontade de saborear, nunca de entreter...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

a percorrer...





Contos da Madrugada - Inverno I

As histórias nascem do que mais insólito sacude a rotina. Têm rostos de homens e mulheres, crianças e monstros, mas recordam que a vida caminha num círculo estranho, quase interrupto, onde pequenas coincidências, pequenos acasos, desenvolvem acções entre personagens avessos a narrativas e criam versos em poemas avessos à rima.

Um Inverno iniciou Outubro, mês da uva, mês da chuva, com granizo e geada nos alpendres das casas. Foram as recordações da madrugada! Aquela mulher de cabelos ruivos e barriga inchada da doença escorregou, de chinelos, no piso escorregadio, na linguagem irreconhecível de uma estação incerta. O chão faltou, mas não caiu. Como em tudo, agarrou -se com unhas à parede àspera com cor de cimento e, em sangue, reergueu-se com força bruta. O corpo cansado, a fadiga já de hábito e roupa lavada, o mesmo assobiu que lhe contenta os dias e a impede de cair, inevitavelemente e para sempre.

O rapaz tranca a porta de casa e coloca a mochila às costas. Pesa! Não há dia em que não pese. Mas os ombros - já gastos e corvados de doze anos de tal exercício - não protestam, nem sequer se apercebem que caminham, lentamente, para uma existência dolorosa nos calcanhares da velhice. Irrequieto, teimoso, percorre as ruas de terra e mato a caminho de uma escola que nada lhe diz, nada lhe espanta. No fundo - ele sabe-o - tudo se resume a letras e números dispostos ao acaso por adultos que nunca irá conseguir equiparar. A vontade e a esperança, talvez mesmo a persistência, desapareceram ainda cedo em outros testes de matemática. Ficou a rotina, tal e qual feitiço. que o encaminha, dia após dia, para uma sala cheio de um vazio de alma, ou mesmo de inspiração.

domingo, 28 de setembro de 2008

Óbito

Gostaria de te ter dito, certo dia, que a incompreensão das coisas arrasta o que de mais hediondo e pobre existe na humanidade. A dúvida transforma-se em certeza e a beleza dos pequenos cromossomas incógnitos da tua complexidade adquire certa nudez imunda, repulsiva. Esta não é exótica - nem tão pouco erótica - é apenas um pequeno pedaço de carne desprendido do brilho e da sensualidade que a compôs. Por tal, amigo, perdeste com poucas palavras o discurso certeiro e eterno de uma vida, na inconstância das tuas atitudes, no alarido inóquo do teu comportamento. Outros - quem sabe - poder-te-iam dar tréguas, ainda que breves, passos de uma caminhada imcompreensível numa estrada turtosa. Perdeste... Por mais que te procure, não te libertarás da imagem deformada que, desde hoje, a minha mente desenhou do teu nome...





sábado, 27 de setembro de 2008

O flautista e a sua sonata

Prevejo

que a sonata do meu flautista

perdeu

o encanto...


Como perdoá-lo?

Vida sem música

alma cambaleante

espírito desgastado

num luar sombrio

De noite, tenho frio

mas a canção é muda

e o ventre infértil


Pequena ilusão da consciência

perpétua dor e na saudade

canção de amor

benevolência

por quem não tem

mais que a saudade

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Composição

na pesquisa
que daqui advejo
paixão incerta
de momentos inoportunos


desejo reprimido
do que me acerca
viver sem medo
viver de sonhos

canções de sátira
amores de ódio
mares doces
de sobremesas geladas
anseios vagos
de futuros incertos
crescimento eterno
marcado na terra
ilusão esquecida
que nunca recupera

conquista
de terra inculta
nada prende
nada compõe
quem dera a mim
ser eterna
completar com palavras
pequenas divagações

se vives para ser assim
não cresças
compõe...

domingo, 31 de agosto de 2008

Dias menos bons...

Computador com vírus, telemóvel no arranjo. O isolamento do século XXI......


sábado, 9 de agosto de 2008

Novo Impacto Ambiental

Ela já brilha! Tudo o resto é história...





Dos que tardaram...mas permaneceram


Quando o vazio preenche um olhar irrequieto





"I´m in the mood for love/because I know you need me...."









quarta-feira, 30 de julho de 2008

I Fórum Açoriano Franklin Roosevelt - Ponta Delgada



Com Marte e Vénus, eternamente amantes


Distinga-se o homem daquilo que representa! Num evento repleto de figuras de destaque nas suas áreas de trabalho e intervenção, a questão peremptória, e tão amplamente discutida, incidiu sobretudo na importância geoestratégica do arquipélago dos Açores no panorama geopolítico mundial! A localização da base das Lajes – assim como a possibilidade de um campo para treino de caças - não escapou imune às referências políticas e históricas dos conferencistas, assim como o sentimento individualista açoriano de se afirmar não enquanto território português mas enquanto um protectorado americano. De facto, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt terá visto potencialidades no território, mais próximo, segundo referiu, dos Estados Unidos da América que as suas próprias ilhas no Pacífico. A temática, no entanto, situou-se nas «Relações transatlânticas na opinião pública Europeia e Americana», na Obamomania e no modo como os acontecimentos mais marcantes dos últimos anos poderão influenciar, estrategicamente, o isolacionismo das ilhas do atlântico. De 16 a 18, Ponta Delgada teve o rosto do maior presidente norte-americano do século XX.

Relógio no Pulso
Em Julho de 1918, o subsecretário de Estado da marinha norte americana, Franklin Delano Roosevelt (FDR), passou por Ponta Delgada, ilha de São Miguel, no decorrer de uma viagem de reconhecimento num oceano repleto de submarinos alemães. A sua biografia refere que terá ficado maravilhado com tudo o que observou e constatou nas ilhas portuguesas, mandando mais tarde pintar um pequeno retrato da chegada do seu navio ao local, imagem que esteve em cima da sua secretária até à sua morte. Permaneceu três dias, entre 16 e 18 desse mês, e uma tarde na Horta. Em algumas cartas recolhidas nos arquivos da fundação Franklin Roosevelt, o líder mais carismático da história americana pede à esposa, Eleanor, que mostre no mapa o sítio onde o pai estivera aos filhos. Anos mais tarde, como presidente dos Estados Unidos da América (EUA), terá sugerido que um dos centros da futura Organização das Nações Unidas se situasse nesse local, zona que, segundo referiu, teria «um clima muito bom». Noventa anos volvidos sobre o primeiro acontecimento, o I Fórum Açoriano Franklin Roosevelt destacou-se na oportunidade de ouvir uma longa lista de vozes que ofereceram a sua visão das relações transatlânticas, mas também pela divulgação de uma parte da história açoriana pouco conhecida do público em geral.
Nos três dias marcados apenas faltou o tempo para uma maior intervenção do público, constrangido pela sucessão apertada de conferencistas, intervenções recheadas de saber e irreverência mas que pouca ocasião tiveram para discorrer sobre outras abordagens. Os nomes presentes, no entanto, compensaram largamente qualquer desagrado, numa iniciativa que o embaixador português em Washington, João Vallera, qualificou de «um sucesso». Das bancadas do teatro Micaelense assistiram também um conjunto de estudantes de várias universidades do país, convidados pela Fundação Luso-Americana. Das relações internacionais ao jornalismo, a sua participação alentou, por mais que uma vez, o fornecimento de dados estatísticos pelos conferencistas e o próprio debate nas mesas redondas.
90 anos depois
Grosso modo, os três dias do Fórum resultaram numa divisão mais ou menos tácita dos grandes temas em debate. Se a 16, quarta – feira, a vida e obra de Franklin Roosevelt esteve mais em evidência (com, inclusive, a abertura de uma exposição sobre a personalidade), o dia 17 procurou o olhar americano e a posição estratégica da América no final do segundo mandato do presidente Bush, enquanto o dia 18 se focou efectivamente nas relações transatlânticas.
No seu geral, a ideia, por várias vezes exposta, dos americanos descenderem de Marte, deus da guerra, da acção, da luta, e os europeus de Vénus, deusa do amor, do romantismo, do idealismo. Embate a noção de que a UE, enquanto resultado de duas grandes guerras no seu território, procura actualmente o caminho da conversação, da diplomacia, como verdadeiro garante da liberdade e da democracia, sendo, por tal, várias vezes desacreditada junto dos seus descendentes, os americanos, filhos da luta e que mais sofregamente anseiam pela guerra. A prova foi efectivada por estatísticas e pelas declarações diversificadas, que apostaram sobretudo no diálogo como forma de entendimento para este milénio. De lado – talvez esquecido – o facto de que Marte e Vénus, ainda que de costas voltadas, são os eternos amantes da mitologia citada. Assim, elabora-se a crença de que por mais que os seus ideais sejam divergentes, as suas opiniões e motivações contrárias, Europa e América tendem a construir o seu futuro de mãos dadas. De um modo ou de outro, estão inevitavelmente condicionados às suas relações de aliados.
Com participações diversas e, por vezes, complexas, acreditou-se na importância dos Açores enquanto ponto fundamental á defesa do traçado mundial. Assim, como nas palavras de Roosevelt, «the only thing we have to fear is fear itself». O ponto alto rendeu-se, no entanto, à palestra proferida pelo ex-presidente da república, Mário Soares, que, apoiando Barak Obama, destacou que «os EUA enganaram-se de inimigo ao atacar o Afeganistão, envolvendo a NATO», referindo também que «o eixo do mal não tem qualquer consistência».
Comentando a actual crise económica, a mais grave desde 1929, lembrou que «faltam líderes capazes na Europa para dar novo impulso à UE», concluindo que «o neo-liberalismo esgotou-se». Num mundo que se prepara para acolher um novo líder completamente divergente dos anteriores cânones de governação americana, há que reconhecer que «a globalização selvagem, resultado de um capitalismo de casino, tem que ser regularizada para um desenvolvimento sustentável».
Actualmente, a política volta-se para salvar a economia, conjuntura que se verificou no período de Roosevelt. São necessários valores de força e consciência, assim como o diálogo enquanto «factor de paz». Soares adiantaria também que «o fórum realiza-se num momento de viragem do mundo», visto «estas eleições americanas serem as mais importantes desde a primeira eleição de Roosevelt».

Num diálogo rico pelos seus intervenientes, o fórum venceu pela forma prática e organizada em expor posições e problemas que necessitam de ser debatidos ou, pelo menos, colocados na agenda do nosso espaço público. Para quem veio de fora, o conhecimento inovador da importância do Arquipélago dos Açores veio conferir importância renovada a um território isolado e frequentemente esquecido pelos governantes continentais. Acresce a certeza de que o debate teria merecido uma cobertura mediática muito mais alargada que aquela que os nossos Media lhe conferiram. O público perdeu, assim, não somente uma reunião de excelência sobre temas pertinentes ao espaço global, como também um conhecimento próprio do quando partes retalhadas do seu território estão, neste momento, a ser inadvertidamente preteridas para a causa internacional. O ganho não deixa de ser nosso! Mas a conquista poderia ser muito maior.

Num mundo que vive do momento

Com o devido respeito pelas pessoas a quem a crítica possa afectar, será assim tão difícil esperar que a pessoa morra para, então, se fazer um filme sobre ela? Não querendo desmerecer o trabalho dos produtores/realizadores em causa, mas arricamo-nos a cair cada vez mais no ridículo. E eu até gostei do The Queen!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

o outro lado dos jogos olímpicos

Report: Beijing bars told to ban black people during Olympics

by Dedric Lam

kobebryant071808.jpgIn a couple of weeks Beijing will turn into a party town and Sanlitun is predicted to be the epicenter of the Olympic night events. The South China Morning Post has however reported that the bar owners in the area were asked to refuse service to black patrons. The article reports:
Bar owners near the Workers' Stadium in central Beijing say they have been forced by Public Security Bureau officials to sign pledges agreeing not to let black people enter their premises.

"Uniformed Public Security Bureau officers came into the bar recently and told me not to serve black people or Mongolians," said the co-owner of a western-style bar, who asked not to be named.

We checked twice just to make sure: This story comes from the SCMP and not The Onion ... in 2008 ... as the world awaits the ultra-harmonious "One World, One Dream" Olympics. Did you hear that? That was the sound of our jaw dropping.

But something about this report doesn't gel. Could this possibly be true? Could it possibly be enforced? Given the strong national ties that China has built with African nations in the last two years coupled with the fact that many Olympic athletes (and their families) hail from African descent — not to mention that such a policy would be despicable and horrendous PR for a country looking to improve its image — it sounds like, perhaps, some racist in the Beijing government went out on his own on this one.

We hope strong denials from Beijing are in the works.

Will Kobe Bryant (pictured) be barred from enjoying a celebratory drink in Beijing?

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O meu nome é Ninguém




Os westerns e Ennio Morricone no seu melhor...


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esboços



“ O que pensavas? Que olhamos para a frente e esquecemos o que fomos para dar lugar a outra imagem, a outra pessoa? Fi-lo durante tanto tempo que quase me esqueci do que me fazia viver, do que me dava alento para estar aqui, nesta terra. Quando olhava para mim, naquelas noites sem fim, frente a um espelho imundo e rachado, não via a pessoa que era mas o reflexo do que queria ser. Negava, negava-me com todas as forças que Deus ou o demónio me davam para ter coragem de prosseguir. Ter o que nunca tinha tido, conhecer o que nunca tinha conhecido. Mas quanto mais caminhava para lá das fronteiras do que eu imaginava, quanto mais fiel procurava ser aos meus intentos, mais me apercebia que havia, sempre, uma força que me puxava para trás. Eternamente, sempre, para trás. E essa força eras tu! A tua imagem à porta de nossa casa, despedindo-te de mim com um até logo de esperança e não com um certo adeus. Tu, nas tuas tranças de criança, os olhos a brilhar e o coração cheio de sonhos, de expectativas. Foste tu que me fizeste voltar. Essa pessoa que vive aí dentro, que eu amei toda a vida e que continuo a amar com tanta paixão como a que tenho pelo que sou e pelo que possuo. Eu voltei para trás para te encontrar, para te levar comigo numa viagem que nos pertencerá aos dois. Porque, ao voltar, eu tornei a ser eu mesmo, voltei a encontrar a minha identidade. Esperei que nunca tivesses abandonado a tua. Eras a mais forte de nós os dois.”

no fim

um sucesso

nunca vem só

amor

com amor se paga

mensagens de pessoas de outrém

aquecem a mente

e refrescam a alma


já tive

quem alvitrasse

que o mundo

nem tem tempêro

apenas o sabor da derrota

e, por vezes, do desespero


na minha santa inocência

- outros clarões -

ouso acreditar na possibilidade

pequeno marco de audácia

pequeno marco de piedade

em viver além da crença

de um futuro promissor

dia a dia seguindo

olhando para trás

procurando

um redentor


nas linhas das moiras

resta ainda a ilusão

que a razão mesmo vencida

não deixa de ser razão

pois na voz do poeta

as verdades são eternas

ainda que o presente

insiste em renegar

a verdade

destas canconetas

Dias de despedida

Gosto daquelas manhãs em que o vento abre a janela e esquece pequenas gotas de chuva na cabeceira. Uma sensação de conforto, segurança tão fortes e ternas que o mundo parece comprimir-se naquele recanto do nosso sossego. Quando o dia acorda nublado, triste e sisudo, trazendo novos de personagens, amantes, que para sempre ficarão no passado, a nostalgia invade um caminho turtuoso, feito à base de pequenas memórias e lembranças algo turvas de como tudo terá começado. Dias de despedida! São quase sempre carregados de nuvens e chuva, mesmo que surjam a meio do verão. Do pouco que conquistam, o coração faz apelo às lágrimas e a cabeça ao esquecimento/impressão eterna. A cidade fica mais escura, as pessoas escondem os seus rostos. No caminho de regresso ninguém te comprimenta com a exaltação do primeiro dia, o sol quente e a voz eufórica das capas negras traçadas de setembro. Não, hoje o dia está cinzento. E já passaram quatro anos...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Contos da madrugada - Intentos

O semblante triste, o rosto amargurado, a beldade de uma terra transformada em líquido de goteira. Que amargura, que destino! Como salvá-la? Ela mais não era que um reflexo, uma piada à sua beleza, à sua presença de lady no altar das estrelas. Ali, translúcida, deixava apenas à memória o desejo de outras noites passadas, de minutos e horas perdidos numa contemplação obssessiva, obstinada, crente que com sorrisos e carícias alcançaria os seus intentos. Como fora cruel a madrugada! A princesa diluira-se em bruma, em nevoeiro. Nada mais era que o brilho caleidoscópico da intensidade da luz na água. Uma coisa bonita de se ver, de colher em sorvos as gutículas de água, uma cantareira repleta daquele alimento eterno, uma frescura no verão. Uma ilusão instantânea de felicidade.

Ai, Clementina... Que fazer com o teu reflexo? Que alento posso eu dar às tuas súplicas, ao teu olhar de sereia que se encrava em mim e me obriga a agir, a saltar, a mergulhar no que desconheço para te trazer de volta para os braços de outro, de outros? Nunca me quiseste, apenas escondeste os teus reais intentos! Chamei-te tantos nomes que, se não me odeias, ignoras-me. Voltei para me redimir, para transformar dor e mágoa em paixão retida. E que encontro? Nada mais além da breve lembrança da tua passagem pela vida. Um tempestade de cores numa madrugada de nuvens, em que o sol mal consegue abrir passagem.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Constatações a três vozes


São três, as senhoras, donas daquela beleza sem dono que transforma quer o mundo quer os homens. Esvoaçam na sua candura alva e envolvente pela mente dos poetas, esses seres incógnitos e meio doidos que nada mais fazem que dissertar sobre o seu egocêntrico estado de alma. Sem elas, eles nada são. Sem elas, não sabem se não lamentar-se. Sem elas falam muito pouco além de si próprios.
Noutros tempos contemplei as musas com a ignorância de quem julga conhecê-las. Elas observaram-me a mim, deram-me pousio, acolheram-me no seu conforto, na suas hostes de embriaguez pessoal, no seu leito do íntimo sadio. Depois fugiram-me. Como fogem sempre daqueles que as amam. Hoje são como espelho rachado, desperdiçado na prateleira poeirenta de outros poetas.
E eu. Aqui sozinha...
Sem tecto, sem casa, sem lar que me acolha de tão perdida e me murcha se encontra a minha alma. Ela voltará - sei que sim! - quem sabe um dia. Estendida na segurança dos lençóis que posso mais fazer se não lamentar a minha triste sina? Palavras de conforto e gratidão percorrem-me a mente, quero prendê-las, saboreá-las, mas elas são escorradias, têm orgulho próprio. Tudo não passa daquele instante, do momento da conjectura. Fica, depois, a memória de as ter possuido, ainda que por segundos, no extenso rol da minha alcova. Nada mais são que pedaços repartidos de uma inspiração à beira do percipício. Num dia sol, noutro dia trevas. As moiras souberam fazer o seu trabalho...

considerações

«Encontro-me em débito limítrofe da falência psíquica.»

Cristóvão de Aguiar

quarta-feira, 25 de junho de 2008

a outros estios

Faz da inveja a última estrada


é de mim que tenho medo


a pena quando passada


é memória


nunca segredo





Dos dias que não falo nem escuto nada




guardo o sol


momentos de alegria


ao mundo quando descoberto


é caixa


para sempre vazia





Os homens


seres bestiais


partem o mundo em duas caras





Nunca podemos desconfiar


quando a terceira nos bate à porta


A derrota é certeira


a crença nunca sagaz


a gentileza passageira


revela os murmúrios que subjaz







O dia cai


a vida cresce


a noite chega


a esperança perece...

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Epílogo



Antes de iniciar o luto pela moral que, por estes dias, vai andar bem lá no fundo do poço, uma pequena advertência: a bola é redonda, tanto dá para o nosso lado como para o dos outros! Se não foi desta, fica para a próxima. Pelo menos este ano a esperança ficou nos quartos de final. A sensação é bem pior quando é mesmo no último jogo que ela morre! Por tudo isto, uma salva de palmas! Desta vez, sempre jogámos a valer, com bastante fúria inclusive, e fez-se o que se podia ter feito naquele momento, naquelas condições. Há-de chegar o dia em que vamos ganhar. Pode é não ser nos tempos mais próximos!
Um adeus também para o senhor Scolari, que a brincar aos santos e a puxar pelo nacionalismo , a bandeirinha na janela, lá fez mais por Portugal que alguns políticos. Subiu a moral, fez viver o espírito. Que tenha muita sorte, muitas vitórias, em terras do Norte. Se ele se queixava da comunicação social portuguesa, agora é que vai sofrê-las! Ah não senhor, não vai ser pêra doce! Quem está habituado ao sol e a alguma compostura, vai ter problemas em dançar à chuva. Que tenha prudência, é o que se lhe deseja! Sempre lhe devemos um segundo e um quarto lugar! Para quem mal passava dos oitavos é bastante bom.
Foi-se o jogo, ficaram os amigos. Daqui por dois anos é o mundial. Talvez dê para contar outra história...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Contos da Madrugada - Regressos

Um dia, sem aviso, resolveu voltar de terras novas à areia vermelha, mastigada, de quantas lendas o mundo tem. Sozinho, de malas às costas, correu pérolas e mares bravios até regressar, meio tonto, meio velho, ao destino proposto. Tudo estava diferente! A velha padaria era agora um campo de mato e erva daninha, onde nem a garotada tinha coragem de penetrar. Gaspar Sousa, o presidente, morrera de fígado, a maldita doença que o consumiu sem ele se queixar, que lhe rasgava a alma e corrompia o coração, mas à qual ele negava quase sempre o seu entendimento. A velha que todos os dias acorria à fonte desaparecera. Onde estaria Clementina? A gazela maltratada, paixão da sua juventude, crente de que a idade adulta lhe traria a liberdade que tanto almejava. Partira? Morrera? Ainda sonhava? Queria voltar a conhecê-la, talvez mesmo a amá-la. Mas a ideia ficaria para outra altura.
- Desapareceu. - alguém sussurrou quase a medo, por debaixo do alpendre negro da igreja - Dizem que foi na noite do crescente, junto à fonte.
- Junto à fonte? Qual fonte?
- Não conhece? - a surpresa surpreendia o medo e a tristeza a denúncia. Clementina fora um exemplo, que ninguém ousava contestar - Foi castigo, só pode! Aquela garota despreocupada, inconsequente! Vivia com a certeza de que nada a afectava, ora aí está uma maldição jeitosa. Desapareceu na fonte, durante a madrugada. A mãe anda chorosa, o pai morreu. Garotas como aquelas nem o diabo deseja...
Mas não se dizia - pelo menos eram essas as histórias das velhas - que era ele quem as procurava? Clementina era bela, bonita demais para terra tão vadia! Como não compreender os desejos do cornudo, ainda que fossem mal acolhidos pelos campónios? Era inveja, só podia!
Desiludido, palmilhou quilómetros de solidão exasperada, talvez sonhando, talvez acreditando, que o seu anjo pecaminoso lhe tornaria as braços, lhe revelaria estranhos enredos, estranhas paixões. Ele - só ele - que construíra naqueles anos o reencontro mais apaixonado desde o findar do último século. Todo o cenário estaria montado! A luz da tarde incidindo sobre a pele morena de Clementina, aquele vestido verde carmim que ela usava em adolescente na primavera, os seus olhos de fera bem abertos, certos dos momentos de idolatria que lhe haviam sido prestados naquela ausência. O ar pesado e quente de um entardecer de verão, a rua vazia, desnuda dos animais de feira e do cheiro a esterco destinado às plantações, as janelas de torno branco e cortinas semi erguidas, véus de mulatas ansiosas pelo prenúncio de uma tempestade humana. O assobio dos pássaros da época em sinfonia beethoveniana, tão completa, tão estrondosa, que faria o chão tremer mal dois olhares de saudade se cruzassem.
Ali estava ela, a fonte. Quase seca, a corrente tinha parado nos últimos tempos. Desde que desaparecera Clementina. Sentou-se no seu rebordo, passou pelas mãos a pouca água que ainda retinha o lodo no fundo. Gélida, como a rocha de onde provinha. Ele e ela costumavam correr para aquelas bandas, em miúdos, desejosos de encontrarem histórias do outro mundo que pudessem relatar à garotada. Nunca tal tinham descoberto, mas as aventuras tinham o mesmo sabor a pecado, ao interdito, e as descrições de encontros alternativos extasiavam os mais novos, aqueles que se reuniam para os ouvir. Sentia falta daqueles tempos, dos dias que não acabavam, das tardes que duravam para sempre. Dos minutos e das horas que se prolongavam por muitos dias. Do tempo passado.
Lamurioso, inclinou-se sobre a bica para beber um pouco daquela água já escassa. O seu coração parou, sentiu a respiração cortar-se no mesmo instante. Era ela! Clementina estava ali! O rosto dela, nítido, belo, eterno, preso na água translúcida da fonte. E chamava por ele...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Macau no horizonte



em setembro ou março, do outro lado do mundo

sábado, 7 de junho de 2008

uma daquelas surpresas

sequência «Nevers»

Prefácio





Um pouco de esperança - ainda que as possibilidades de vitória não sejam por aí além - nunca fez mal a ninguém. Se nos restar uma desilusão como a de há quatro anos, não terá sido mau de todo. Antes ir coleccionado vices - vitórias que o último lugar nas tabelas. Não vou gritar por Portugal a plenos pulmões, exultando como uma louca o poder da nossa selecção, mas vou vibrar com esperança nos jogos da selecção portuguesa.
De parte fica a irritação por os nossos Media parecerem ver no Cristiano Ronaldo a salvação da nossa alma moribunda. Se o pobre do rapaz calha a estar num dia mau, lá se vai todo o espírito do jogo. Para não falar do ambiente pouco justo para o resto dos jogadores que também fazem o seu trabalho, também lutam pela vitória e que poucos parecem recordar quando é a altura de dar os vivas. Não queiramos - como é costume na história portuguesa - ser governados por um único herói, um dom Sebastião de calções e a fazer piruetas com a bola! Está na altura de nos vermos como um povo, um colectivo, onde cada um faz o que pode pelo bem de todos. Talvez nesse dia ganhemos efectivamente alguma coisa.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Ponto de Exclamação


Lince-ibérico vai ter casa no Algarve06.


in Público

06.2008

Helena Geraldes


O felino mais ameaçado do mundo vai ter casa no Algarve. Esta tarde foi lançada a primeira pedra do Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro para o Lince Ibérico, na Herdade das Santinhas, Silves.
Hoje está “virtualmente extinta” em Portugal uma espécie que há 150 anos abrangia praticamente toda a Península Ibérica. A população mundial reduz-se a 150 indivíduos, todos em Espanha. Estes números carregam de uma “responsabilidade enorme” o centro de reprodução algarvio, que quer trazer o lince-ibérico (Lynx pardinus) de volta a Portugal, disse ao PÚBLICO Artur Ribeiro, administrador da Águas do Algarve, entidade responsável pelo centro.“Queremos ajudar a que se possa dizer que existe lince-ibérico em Portugal e não só em Espanha”, comentou, minutos antes do início da cerimónia de lançamento das obras de construção.A nova “casa” do lince tem vista para a albufeira da barragem do Arade e vai nascer na Herdade das Santinhas, com 156 hectares, como medida de compensação pela construção da barragem de Odelouca, imposta pela União Europeia. As obras deverão estar concluídas até ao final do ano e os animais poderão começar a chegar a partir do início de 2009. Um “prazo curto”, nas palavras de Artur Ribeiro. “Esta é uma obra complexa, que inclui vários edifícios, como o centro de reprodução, laboratórios, habitações, centro de quarentena, centro de coordenação e cercados”.O projecto está a ser acompanhado de perto pelo Centro espanhol de criação em cativeiro e técnicos portugueses foram a Espanha “aprender para não cometer os mesmos erros”, explicou Artur Ribeiro. Numa primeira fase, Espanha - que, no ano passado tinha 37 linces em três centros -deverá ceder a Portugal oito linces, cumprindo o programa ibérico de repovoamento, cujo protocolo foi assinado a 1 de Setembro do ano passado entre o ministro do Ambiente Francisco Nunes Correia e a então ministra do Ambiente espanhola, Cristina Narbona.O Centro na Herdade das Santinhas tem capacidade para 16 animais. “Queremos fazer trocas de linces entre os que nascem em Portugal e os que nascem em Espanha, para evitar a consanguinidade” na espécie.Os linces que serão enviados de Espanha para Portugal são aqueles que nasceram em cativeiro, que foram capturados no campo enquanto juvenis ou que estão em centros de recuperação, depois de terem sido encontrados feridos.Além deste centro de reprodução será construído um centro de divulgação ao público, com ligações em directo, através das câmaras de vigilância, à “casa do lince”. Mas este está mais atrasado. “Ainda estamos a preparar o lançamento do concurso de concepção e construção”, adiantou Artur Ribeiro.Para Tito Rosa, presidente do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB), “este centro é fundamental”, um “investimento importantíssimo, basilar”. “Acreditamos seriamente que é possível reverter a situação” da extinção virtual do lince em Portugal. Mas o centro de reprodução não é o único trunfo. Tito Rosa lembrou também a recuperação dos habitats e presas naturais para a futura reintrodução da espécie em estado selvagem.

terça-feira, 3 de junho de 2008

retalhos

Faz do teu dia o último
assim como conta a madrugada
a esperança,
ainda que não se pressinta,
nunca faz parte de uma história passada

Por isso aqueles dias que correm
sem ter bem a certeza daquilo que são
conto-os aos primeiros toques da madrugada
fazem parte dos meus sonhos
dos atalhos da recordação

O meu amor pelas pequenas coisas
não faz de mim obstinada
apenas me diz,
sem remorsos,
que sou mais que aquela moça
por todos esquecida
e por todos esperada

Ode a Nix



Chegou a Primavera! Parece anúncio de campanha publicitária a uma qualquer marca de roupa, mas a Primavera – é um facto – não vende só matéria, vende também ideias, conceitos. Quem se aproximar por estes dias do Jardim Botânico de Coimbra não terá que desembolsar os habituais euros (como é prática corrente na maioria das visitas culturais desta cidade), mas deverá abrir a mente. Quem não for entendido, que reabra o espírito! Chegada a Primavera, algumas coisas são mesmo o que parecem ser…

O primeiro olhar desperta o eterno paradoxo do natural versus o material, o belo versus o feio, o elegante versus o rude, a obra humana, fria, crua, opaca, e a obra de Deus, quente, multiforme, perfeita. Mas porque não partir por esse caminho? O desfilar das peças de Rui Chafes (escultor lisboeta cuja inspiração artística advém do romantismo alemão) pela avenida central do Botânico não se confunde, não se mistura, muito menos pode passar anónimo aos olhares dos estudantes que, de pasta debaixo do braço, se perguntam por que mãos – do céu ou da terra – aquelas esculturas em aço, a sucumbirem, elas próprias, aos ditames da natureza, vieram aterrar (ou pairar, consoante os casos) na paisagem primaveril daquele jardim de Coimbra. Uma ou outra são, inclusive, vítimas da rebeldia juvenil, onde redes que suspendem esferas com adornos de fogo fazem as vezes de cestos de basquete a vários tipos de embalagens de refrigerantes.

A exposição tem por título A mesma origem nocturna. A placa que lhe serve de legenda afirma que o Romantismo de Chafes só poderia encontrar paralelo ao Racionalismo do Botânico. O marquês, provavelmente, não acharia piada a tais modernices! Imaginá-lo passeando por entre obras que fazem o reflexo da arte contemporânea, que buscam as imagens de estranhos objectos de guerra, alguns até de tortura, é vê-lo subir ao palanque da forca para cumprimentar a Senhora Távora. Tem a sua piada, o seu glamour, uma estranha inclusão de sentido, ainda que desconexo, mas continuamos a assistir ao rebaixar do mais nobre perante o poder do mais forte.

De nocturno há a sensação do retorno aos Génesis, a criação divina que se rompe do negro vazio e a obra humana criada para os mais obscuros fins. O jardim e a escultura, então, completam-se! Já não são elementos conjugados no mesmo espaço por um estranho acaso do destino, mas obras moldadas nas mesmas malhas incógnitas, frutos de enigmas que a humanidade transporta, de que é filha, costela deslocada do corpo, mas cujo verdadeiro sentido, primeiro objectivo, ainda hoje desconhece. Como justificar uma flor, o coaxar de uma rã na fonte coberta de lodo, os líquenes que se incrustam no aço, o quente calor da tarde que sufoca e traz a Abril a Primavera? Como explicar a suspensão das esferas, que parecem em breve cair sobre nós como balas de canhão, a base metálica malhada de uma espécie de maca tanatológica ou um tripé de vários metros a recordar um estranho engenho de batalha? Quem compreende o tempo, que passa por nós como flecha, que nos levou a sonhar, a criar, a conceber todo um mundo que se suporta destruindo a natureza? Todos nos surgem eternamente presentes, não lhes podemos negar a nossa inteligência, mas nem um nos pode fazer entender a sua criação.

As peças de Chafes e o Botânico parecem assim partilhar a mesma origem, ainda que não pertençam à mesma matéria. Uma ode a Nix, deusa grega da noite, irmã do Caos, mãe da Morte, dos Sonhos. Forma algo simples de dizer que, apesar das dúvidas, todos sabemos quem somos e o que queremos, mas não de onde vimos nem para onde vamos. Entre o racional e o romântico permanece a incerteza da existência, as suas dualidades, as suas incoerências. Por muito diferentes que sejamos, no fundo, todos possuímos a mesma essência!