sábado, 28 de fevereiro de 2009

No banco de um jardim

Quem arranja
um poderio
que em seu nome
oferece
padece, em suor frio
entre o que a alma quer
e o que merece

Nas tardes
de nebulosa frente
em nada mais se anseia
que a multiplicidade
em horas
de sensatez tamanha
encontro no escuro
a felicidade

Aos deuses
com que me deparo
nada peço
e a nada rezo
procuro sim, a imensidade
do que tocando
se esfuma em desejo

Pobres daqueles
que oiço terem
encontrado o lume e a foz do cepo
a pele arde, o corpo incha
e fogem os temores
à saciedade

Caiu a sombra
sobre a terra coberta
Deixou-se escura
o que se pressente.
Às horas vagas, diz-me o ser de antemão
que a hora
santa
nasce do querer
de uma recordação

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Parágrafo

Por um dia que fosse
na história do mundo
quisera eu ser outra
para contigo partilhar
essa perspectiva sem dono e ábil seguro
que é o tempo que por tempo
se recusa a passar

Em noite se fez esse desejo
em noite se fez essa imensidão
o futuro
por um inesquecível ensejo
adormece o ser
em sua contemplação

Depois vem o sonho
vem a liberdade,
não possuindo nada além da eternidade,
as sombras são pó que em translúcida ilusão se formam
e as mágoas em crença
se castigam
na ousadia de procurar possuir
um bem maior.

O dia acorda,
a cortina desce,
o Homem que em movimento se ilude
em cruzes padece
o mago em profecias advinha
que é chegado o momento
de inaugurar
uma nova Terra

A noite fez-de dia
mas continuo a imaginar
que essa sensação de consciência perdida
é mais que além do tempo
no lento e doloroso terreno
de uma criança por abraçar

a um passo da China


Jardim Municipal Sun-Yat-Sen, Macau


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Foi o destino



Vi o filme algumas horas antes da cerimónia dos óscares. Fui dormir a desejar que a banda sonora vencesse. Vale a pena ver um filme assim... Música excelente, uma história de lealdade e busca por um bem maior. Um merecido vencedor!



sábado, 21 de fevereiro de 2009

Narrativas de Macau (8) no encalço de um andarilho


    Macau tem uma história. A minha história, pelo menos.

Tem um protagonista, tem a sua amada, tem uma aventura e inclusive, tem um final. Se é feliz ou não, depende em muito da  interpretação.

Correndo o risco de não agradar a quem correntemente me parece aqui passar, há uma certa história que me apraz contar. Todas as minhas viagens, ou os seus projectos, têm um sentido, possuem uma origem e um objectivo. Nenhum lugar que eu anseie conhecer é-o por pura simpatia. Como pessoa que gosta de História e de histórias, os meus projectos costumam ter uma, mais ou menos romântica, mais ou menos plausível. Macau também tem a sua.

 

O que este trabalho que escolhi tem de negativo é que nem sempre a inspiração ajuda. Os escritores, ou pelo menos os que escrevem, têm dias bons e dias maus, dias de muitas páginas e dias de poucas palavras. Julgo que também posso revertê-lo a esta casa. Nem sempre apetece escrever, nem sempre a alma ajuda, por muito seca que se queira a escrita.

Imitando algumas colegas, costumo ligar os phones  e ir escutando um ou outro cantor mais ou menos famoso, de modo a tentar soltar as linhas. Tudo serve! Músicas salteadas, do mais pop ao mais rock, bandas sonoras de filmes ou, inclusive, cenas, trechos dessas mesmas películas. O que me interessa não é ver - até porque as cenas que procuro raramente não as conheço de cor - mas sim ouvir os diálogos. Bem escritos, bem interpretados, no tom adequado, são como um Eça de Queirós sussurrado ao ouvido. Não há nada que me agrade mais num filme ou num livro que um diálogo bem escrito, com a exacta medida das palavras.

Tenho vários que vou digitando quase já sem me aperceber que o que dizem possui realmente sentido. Desde pequenos momentos das adaptações de Jane Austen aos magníficos trechos de “Hiroshina, meu amor”, passando pelo meu caro Terence Hill contando a história do passarinho e do coiote a um inexpressivo Henry Fonda. Têm tal profundidade que me soam como música, o que, julgo, faltar a muito bom livro ou filme por aí.

No outro dia, lembrei-me de ouvir uma música em particular.

 

Sou do tempo da televisão privada, tinha 5 ou 6 anos quando apareceu a SIC e ainda me lembro que sintonizei o canal, na velha televisão lá de casa que já nem funciona, sem os meus pais darem por isso. Sou do tempo em que o “Dragoon Ball”, a “Sailor Moon”, os “Jetsons”, os “Flintstons” e afins invadiram o panorama infantil e substituíram a inocente e afamada Rua Sésamo (que passa em Macau - momentos muito nostálgicos no último fim-de-semana). Ainda hoje gosto deste tipo de animação e por vezes questiono-me se, com todas as contrariedades que a invasão da Anime e da Marvel provocaram, não seriam estas séries mais saudáveis que toda essa morangada que por aí anda.

Considerações à parte, onde ficou a idade da imaginação e do mundo das cores, dos mistérios  e super-heróis que nos faziam querer superar as nós mesmos (contava aqui a história de uma fato de homem-aranha, mas não tenho autorização para isso)? Longe de romances e contra-romances, de heróis adolescentes e histórias amorosas de folhetim. As novelas de hoje são os desenhos-animados de há 10 anos.

Não me inclino perante a crítica! Quando chegava, a casa depois de um dia de trabalho, nada me sabia melhor que deitar-me ao comprido no sofá e assitir às desventuras da Matilde e do Pedro (?-já os confundo a todos). Mas como há 10 anos se exagerou na dose de bonecada, chegando-se ao ponto de passarem às 10 da manhã animes que deviam levar bolinha vermelha, também hoje se exageram com as séries juvenis.

Tenho saudades dos tempos do “Dragon Ball”. O primeiro, os outros já não tinham a mesma piada. Talvez por causa disso ainda goste de Anime. Com a devida escolha, diga-se, pois há de tudo ali daquele lado dos samurais. Mas, confesso, têm séries excelentes, com histórias de uma profundidade constrangedora, de fazer inveja a muito filme de Hollywood. Por vezes, oiço as suas músicas.

Tenho alguns filmes favoritos, que me comovem de alguma forma, longe de serem bons ou maus, êxitos ou fracassos de bilheteira. E tenho um anime favorito, do qual já recolhi grande parte do que foi feito mas que, depois de vários visionamentos, ainda me deixa a pensar.

 

Esta é parte da minha história com Macau.

Quando soube da ideia, conquistou-me o lado. digamos, romântico da viagem. Depois, claro, vieram as contingências do processo, o seu lado pragmático e, até certo ponto, funcional da perspectiva. Agradou-me a ideia de conseguir compreender o pulsar do outro lado do mundo, de estar onde os que vieram antes de mim e fizeram a minha história tinham estado e, sobretudo, criar as minhas próprias opiniões, as minhas próprias perspectivas sobre o lugar que me era oferecido sobre a forma de estereótipos e histórias mirabolantes de cobras ao pequeno-almoço. Como diz aqui certa personalidade, vim ganhar mundo, algo que julgo faltar a muitos no ocidente e que, em larga parte, me falta a mim também. Mas vim sobretudo tentar encontrar um andarilho.

Macau também tem, portanto, um filme, uma música, uma memória, como têm para mim Viena, Paris, Angola, o México ou o oeste americano (umas mais diversificadas que outras). Chamem-me viciada, mas não me culpem. Sou da geração da televisão privada e da internet. 

Passava  na TVI, nos tempos do Batatinha e Companhia, um anime chamado Samurai X, cujo título original vim a descobrir ser "Rurouni Kenshin", algo entre o caminhante Kenshin ou o andarilho, na tradução brasileira.

"Rurouni Kenshin, romantic tales for the Meiji Era" conta uma história e fala sobre História. Vai ao encontro de uma revolução. Para quem tem interesse pelo Japão, de certo que a série será bastante didáctica. E, tal como diz o título, conta as revoluções da era das Luzes nipónica e, sobretudo, o que foi preciso fazer para alcançá-la. Um corte com o passado, com as ideias feudais e guerreiras de outros tempos, o que na China só viria a acontecer mais de 100 anos depois. Bem analisado, não se afastará muito daquele épico do Tom Cruise de há poucos anos, o qual não possui ou está longe de possuir a mesma intensidade e a mesma compreensão daquele outro lado. 

Kenshin é um samurai marcado, por diversas formas, que para se remediar dos pecados da revolução percorreu a vida toda o caminho tortuoso que é remediar os males de um teimoso idealismo e das filosofias criadas sobre as luzes da morte e da guerra. Por tal, nunca alcançou a paz! O final da série anime dá essa impressão, mas quem encontrar os OVAs, que contam o antes e o depois, apercebe-se que apenas a doença, a memória, a senilidade, conseguiram apagar os males que o mundo inflige às almas, diremos, dos idealistas, dos românticos. Por tal, o Kenshin não seria um Estaline ou um Mao (mau grado a comparação), mas antes um Lenine ao constatar o valor efectivo da sua obra e tentando apagar os rastos amargos do que teve que percorrer para a alcançar. 

Presumo que foi essa redenção por uma época defunta e pela vontade dos mais novos em compreendê-la que me cativou. Por três ou quatro vezes que vi os 99 episódios da série e os oito da OVA, escapou-me aquele sentido que é a entrega de um homem a uma causa e a sagacidade como procura contrariar a inevitabilidade das consequências da história. O que também faltou aos americanos que realizaram o “Último Samurai”. 

O Kenshin passa toda a sua vida em busca de uma resposta, em busca do perdão. No fim, morre em paz, mas também fica senil, também se perderam outras vidas. No meio de toda a história, de toda a carismática entrega de muitos à revolução, há qualquer coisa que ainda me escapa...

 

Onde entra Macau no meio disto tudo?

Macau é a vontade expressa em acto de querer compreender traços deste Oriente que continuam a fugir-me. Por muito distante que esteja o Japão, a convenção feita personalidade permanece e continuo a querer entender o porquê de pequenas coisas, o porquê de atitudes e complexas transformações. Por muito tempo que aqui esteja, não nasci neste lado do mundo.

No fundo, confesso, também eu sou um andarilho, no encalço de outro andarilho, procurando as minhas respostas a perguntas que já outros fizeram antes de mim. Mas não estou interessada nas suas considerações...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

o que se encontra no youtube



Eram os Morangos com Açúcar de há 10 anos e não faziam mais nada para além daquilo para que tinham sido criados: entreter. Mas fogo, que saudades!!! Mais que não seja pela época e por essas tardes de Verão em que pouco mais fazia que ver televisão e apanhar sol...


video



Eu a minha irmã nunca fomos assim...

Narrativas de Macau (7) o espaço da minha Audrey



Falemos agora um pouco sobre espaços. Pessoalmente, os meus locais favoritos costumam ser aqueles que, de alguma forma, me despertam algum significado pessoal ou que, com a sua decoração ou algum pormenor inaudito, conseguem mexer com a imaginação. Em sentido lato, aprecio sobretudo espaços abertos, daqueles que nos afagam o impulso de esticarmos os braços e nos estendermos ao comprido. Não tenho culpa, nasci na serra, e apesar de sempre ter sido muito caseira, uma das coisas que mais me estimulam a criação e o bem-estar é sentar-me na varanda da minha casa numa tarde de verão, logo depois do almoço, e observar ao fundo o castelo no cima do monte, quase um quadro medieval sobre um fundo azul.
Em quase todos os sítios por onde passei houve um determinado espaço que ou pela localização ou pela vivência permaneceram na minha memória e a eles regresso sempre que me é possível. Pois, mais que o conforto por se estar num sítio que nos toca, é aquele vibrar fortuito de uma história a germinar, o contorcer quase involuntário da criação que se apodera do cérebro e quase que do corpo. As palavras parecem brotar com mais facilidade, escrevem-se momentos quase de poesia e, pelo menos aquelas partes, acabam por se transformar nas linhas e parágrafos mais "saborosos" dos contos, das histórias, dos artigos ou de simples rascunhos que nunca chegam a ganhar corpo.
Em Portugal, gosto quando tenho que passar pelo santuário e sentir-me um ponto pequeno naquela imensidão que quase nos abraça ou nos quer abraçar. Gosto quando subimos ao castelo e passeamos pela vila debaixo de chuva. Gosto de me sentar nas escadas da faculdade de letras e ficar a observar o movimento ora apressado ora pachorrento dos meus colegas, de todas as nacionalidades. Gosto do claustro do instituto, agora já mais ajeitadinho, e de ver a chuva cair sobre ele nas tardes de inverno. Gosto de me debruçar sobre o rio nas noites de Queima e ver lá em cima a torre iluminada da universidade. Gosto de soltar o Piloto em dias de Primavera e juntos corrermos até ao pinhal, descobrindo sítios perdidos na mata, tão simples quanto encantados, pequenas recordações que despoletam as histórias dos contos de fadas que eu lia na biblioteca da escola ou, simplesmente, exercitações de um olhar cinéfilo, a querer transportar pelas páginas dos livros o impacto das cores da tela.
Em Macau ainda não consigo magicar histórias. Por muito que a percorra e tente compreender os momentos desta terra, ela ainda não é minha, ainda não construí nela uma casa. Já passei por situações boas e menos boas, já tive dias bons e dias maus, mas ainda não alcancei nenhum dos extremos. Por tal, mesmo que me encantem as casas portuguesas ou a fachada do Albergue da Santa Casa, o impacto da descoberta permanece na beleza das coisas e não no que elas me pudessem transmitir. É como se visse um filme lindíssimo e, no fim, apesar de ter gostado, não o compreendesse de todo. Mais ou menos aquela sensação que me ocorreu da primeira vez que vi o The Fountain. Adorei, simplesmente! Mas não percebi nada...
E essa é a maior frustração. Conhecer o lugar sem conseguir percorrê-lo mais a fundo. Adorar sentir o espaço do Largo do Senado às 5 da manhã, mas não conseguir ir além do agitar rebelde dos gatos que se escondem atrás dos canteiros. Observar as pessoas no seu dia a dia, na sua correria, e não conseguir entender porque correm, porque riem, porque choram sozinhas num canto isolado junto das ruínas...

Não obstante, existem espaços que me agradam e, apesar de ainda não terem nenhum significado especial para mim, encontro neles um sentido e uma agradável sensação de reconhecimento, uma primeira pontade de creatividade, a despontar. Um dos meus melhores passeios findou no Reservatório, um pequeno parque junto ao rio das Pérolas, num final de tarde, reconhecendo, ao longe, os jetfoiles que partiam para Hong Kong. Uma paz imensa, uma tranquilidade inexprimível depois de todo o reboliço que tinha apanhado pelas ruas e ruelas de Macau. E gosto dos jardins embrenhados no meio da cidade, também eles pequenas pérolas, onde as velhotes jogam um estranho xadrez, as crianças brincam e as mulheres percorrem em alegre monotonia. Gosto de encontrar recantos onde outros antes de mim estiveram, com mais ou menos história, gosto de me perder nas ruelas - aquela verdadeira China - de Macau. E gosto do espaço da minha Audrey...
As contigências desta minha vida por terras a Oriente levam-me a fazer as refeições fora de casa. Quando estou de folga, gosto de evitar o sítio costumeiro a que me habituei a dirigir e procuro  encontrar restaurantes diferentes, mais ou menos chineses, tailandeses ou afins, onde me possa misturar e conhecer essa variedade mestiça que é a terra do Santo Nome de Deus. Já encontrei algumas preciosidades, mas também alguns sítios que fariam tremer a ASAE da santa terrinha. E eu que me queixava das tascas de Coimbra...
Mas quando o restaurante do costume está fechado, gosto de ir visitar a Audrey. É chinês para turista ver e português só de referência. No entanto, a comida é boa e no meio de tanta misturada aquele caldo-verde com um leve sabor a picante deixa-me de rastos.
Com uma larga montra, deixa a luz entrar com facilidade, o que combina com a decoração em cores claras e "teens" e o design moderno. Numa das paredes, muito ao estilo da pop art, está esbatida a imagem da Audrey Hepburn, naquela versão cinematográfica romântica, e já clássica, do romance de Truman Capote, Breakfast at Tiffany's.
Ainda não percebi muito bem porque é que o lugar me cativa só pelo facto de olhar para a Audrey de cigarro na mão, com aquele olhar inocente e perdido, a pedir desesperadamente por auxílio ao mesmo tempo que diz não pertencer a ninguém. Talvez seja pela forma como me transporta para outras paragens, uma madrugada passada a observar uma montra duma rua de Manhattan. Ou mesmo o simples estilo travesso, de quem parece abstraida da realidade mas que, em verdade, observa tudo com muita atenção. E, claro, aquela imagem da beleza perfeita por ser tão imperfeita, a da jovem que parece não saber o que quer mas, no fundo, sabe-o com franqueza. Agrada-me, faz-me sentir uma estranha sensação de calma e, como em mais nenhum sítio ainda por aqui, faz-me querer mexer com a imaginação.
Gosto de locais que me transportem para a vida dos filmes e de filmes que me despertem o interesse para certos locais. Heaven, um dos meus filmes favoritos, deu-me a facada final assim que vi as imagens da Toscana. Ainda hoje consigo ver aquela comédia da Meg Ryan, French Kiss, só pelas imagens do sul de França. O Diamante de Sangue e o Fiel Jardineiro puseram África nos meus planos futuros. E depois, claro, Viena, que os passeios de Antes do Amanhecer ainda me arrebataram mais a imaginação. Macau também tem uma história semelhante, mas conta-la-ei noutra altura.
No final...gosto de espaços, gosto de locais, gosto de paisagens que me preencham o olhar e de espaços que me despertam a imaginação. Gosto da cena da longa planície que Henry Fonda enfrenta no O Meu Nome é Ninguém. Gosto de passear sozinha pela Nan Vam e recordar os contos de Senna Fernandes. Gosto de ir encontrar a Audrey ao fim da manhã e ir com ela até Nova Iorque. Mas gosto sobretudo de olhar pela janela e constatar que, finalmente, cheguei a Macau...


Lindo!!!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

o outro lado





Desconcertados com o que viam,
ou julgavam ver,
quiseram, Sol e Lua, trocar,
ou compreender,
esse odor do outro lado 
que é o mundo
por conhecer

Nasceu a terra do avesso
convertida nas aspirações
de si mesma

o homem nasceu velho
a rosa cresceu murcha
discutiam-se biberões nos parlamentos

as crianças já não brincavam,
pensavam com pavor no futuro,
os animais já não corriam
permaneciam encarcerados nas gaiolas

o tempo parou.
aquecia quando deveria chover
chovia quando se desejava calor,
o vento soprava ao almejar-se a maresia
o pó feito terra fendia os campos de cultivo

Para quê querer-se o desconhecido
e o que se quer conhecer?
o mundo, mesmo convertido,
nunca deixa de o ser.
Sol e Lua retrocaram,
quiseram regressar,
pois antes a ilusão do que é vago
que a dura realidade
por constatar




A nossa costela judaico-espanhola


Para os que gostam de filmes sobretudo históricos, de capa e espada (e do Viggo Mortensen já agora). Tristemente esquecido pelas salas portuguesas.

O Capitão Alatriste
(trailer aqui)


terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Reticências...

Escritor Ian McEwan revela que deu asilo a Salman Rushdie

in Público


O escritor britânico Ian McEwan revelou, passados 20 anos e dois dias, que deu a mão ao seu camarada literário Salman Rushdie e que se esconderam na sua casa de campo depois de, no dia 14 de Fevereiro de 1989, o ayatollah Khomeini ter emitido uma fatwa (decreto religioso) a ordenar a morte de Rushdie, pelo seu livro "Versículos Satânicos", que o líder religioso supremo considerou ser uma “blasfémia contra o islão”.

A história do papel que Ian McEwan teve no exílio interno de Salman Rushdie será publicada na próxima edição da revista "New Yorker". “Nunca me vou esquecer — na manhã seguinte acordámos cedo. Ele tinha que estar sempre a fugir. Foram tempos terríveis para ele”, contou McEwan.

“Estávamos a fazer café e torradas e a ouvir as notícias das 8h00 da BBC. Ele estava mesmo ao meu lado e era o tema de abertura das notícias. O Hezbollah investia toda a sagacidade e poder para o matar”. Esta foi uma das muitas manhãs dos cerca de dez anos em que Rushdie viveu escondido.

A "fatwa" levou ao corte de relações diplomáticas entre a Grã-bretanha e o Irão. Só em Setembro de 1998 é que os dois países melhoraram relações, quando o Presidente iraniano, Mohammad Khatami, garantiu que não apoiava mais a perseguição a Rushdie. Mas as autoridades iranianas reafirmaram, na quarta-feira, ao aproximar-se o aniversário dos 20 anos da declaração da fatwa contra Rushdie, que esta “não foi anulada e é válida para sempre”.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

E por aqui comemora-se o São Valentim


in Jornal Tribuna de Macau

São Valentim ou São Rafael?

A igreja católica romana da Grã-Bretanha veio assinalar que as preces dos solteiros que ainda não encontraram o seu parceiro devem ser dirigidas a São Rafael e não a São Valentim, santo dos casais já formados. De acordo com a lenda, São Rafael ajudou Tobias, que já perdera sete noivas em vésperas do casamento, a casar-se com Sara. Será portanto a este santo que se devem dirigir aqueles que procuram o amor.
A lenda de São Valentim, por seu lado, é algo dúbia, existindo inclusive dois mártires com o mesmo nome que terão morrido a 14 de Fevereiro. O conto mais corrente distingue um padre que, nos tempos de Claudius II, continuou a realizar casamentos mesmo após a sua proibição pelo imperador romano. Claudius considerava que se os jovens não tivessem família, alistar-se-iam com maior facilidade no exército. Descoberto, preso, torturado e condenado à morte, Valentim recebeu no cárcere cartas e flores de pessoas que acreditavam no amor. Uma das pessoas que o visitava era a filha do carcereiro que, sendo cega de nascença, terá recebido a visão após as múltiplas preces do sacerdote. Outra história conta que os dois se teriam também tornado amantes, tendo este escrito à apaixonada uma carta de amor que finaliza com “do seu Valentim”.
A comemoração a 14 de Fevereiro pode ainda estar relacionada com as festas pagãs de Lupercália. Dedicadas à deusa da fertilididade e do casamento romana, Juno, na conversão ao cristianismo terão ficado associadas a São Valentim, como aconteceu a outros dias marcantes do calendário religioso cristão.

C.G.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Narrativas de Macau (6) Madame Bijoux



O filme é de 1997. Se hoje os críticos já o analisam de forma mais ou menos distante, focando os erros, a história cliché, de romance de praia, o blockbuster para fazer render as bilheteiras, na altura a película de James Cameron foi uma verdadeira revolução, de tal forma intensa que parece quase impossível que os actores tenham realmente conseguido fazer carreira além das suas personagens, conquistando várias nomeações para óscares e adquirindo o desejado estatuto de super estrelas de Hollywood. Há quem diga, aliás, que provavelmente ainda não conquistaram nenhum devido ao tão badalado filme que fizeram na juventude. Para muitos, essa "maldição" espera-se que termine já este mês.
O que ficou para a história, no entanto, não foi nem a polémica nem a fama, mas as dezenas de prémios que o filme arrecadou, o título de clássico do cinema e o facto de, até hoje, ainda ser o filme mais visto de sempre na história do cinema, com todos os Harry Potter, Senhor dos Anéis, Piratas das Caraíbas e Batman que já por aí passaram. Clichés à parte, no meu caso vai ficar recordado como um dos filmes da minha pré adolescência. 

Ainda a narrativa não vai a meio e há uma cena, no deque do navio, em que Jack fala a Rose de uma certa Madame Bijoux que conheceu em Paris. Uma mulher que se sentava todas as noites num bar, com todas as suas jóias, à espera do regresso de um amor há muitos anos perdido. A cena, com toda a simbologia que tem no filme, sempre me passou um tanto de lado, mas sem me ser indiferente.  Talvez fosse aquela ideia de algém guardar por tantos anos uma memória que, para todos os efeitos, pode nem ser real, apenas fruto de ilusões criadas na juventude. E o rosto da mulher, algo bravo e desconfiado, tem o seu quê de romântico, muito à Belle Époque e àquela trilogia de felicidade e liberdade de que o filme Moulin Rouge faz o seu mote.
Aqui em Macau há um bar muito agradável onde por algumas vezes já estive com as minhas colegas. Da primeira vez que lá estive reparei numa mulher bastante bonita, chinesa, bem vestida, que se sentou toda a noite sozinha ao balcão. No princípio pensei que fosse empregada, mas verdade seja dita pouco ou nada fez naquele par de horas que por ali passei e o bar estava cheio. Sentada ao balcão, semi a descoberta pela luz fraca que incidia nos copos à sua frente, foi fazendo um estranho emaranhado de nós numa série de arames.
Achei piada, perguntei quem era, mas ninguém me soube responder. O certo é que de cada vez que lá regresso encontro a mesma mulher, bem arranjada, bem vestida, sentada ao balcão naquela confusa actividade. Pensei que fosse algum tipo de bijuteria, mas o facto é que o resultado final que ela leva debaixo do braço quando sai não se aparenta com nada que eu alguma vez tenha visto. Sorri muito, principalmente quando a chamam, mas tem um certo olhar triste, solitário mesmo, que na outra noite me recordou a Madame Bijoux dos desenhos do Jack.
O certo é eu vir a descobrir que ela é amiga, mulher ou afins do dono e passa ali a noite à espera dele ou de outro alguém, ou mesmo que a sua história não tem nada de especial. Por enquanto, recorda-me a Madame Bijoux e as histórias por contar desta terra.





terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Uma daquelas vontades intensas...

Para quem gosta de filmes belos e com significado (e com necessidade de vários visionamentos antes de se entender o sentido)

The Fountain
O Último Capítulo















Uma cidade 24 horas


Mais uma reportagem realizada para a cadeira de Jornalismo Escrito II. A turma foi distribuída para cobrir os vários momentos da cidade de Coimbra ao longo do dia. Eu fiquei com a madrugada e segui um padeiro durante a distribuição de pão. Fica aqui o texto, para quem gostar de reportagens.


A Cidade (até ser dia)

Uma madrugada na padaria 

Ainda não bateram as seis. A cidade dorme, escondida nos seus prédios, nos seus cobertores, alheada dos que preparam a alvorada. Na padaria Tosta Rica, José Manuel já ligou o forno, retirou a massa da câmara do frio, depois de passada uma noite de levedura, e vai cozendo o pão com energia e despacho, provocando inveja ao espectador que o observa, ainda ensonado, ainda entorpecido pelos sons da noite. A lua vai descendo no firmamento, as nuvens vão dando lugar a pequenos rasgos de céu, que o sol ainda não alumia. Os postes de electricidade continuam ligados, uma coruja pia, ao longe, num tenebroso acordar. A limpeza já passou, os gatos trepam pelas varandas, vultos de sombras esgueiram-se pelas ruas. Uma solidão cortada pelo assobio de José Manuel que, sozinho, prepara as encomendas. Parece que o colega não vem trabalhar hoje!

Cheira a farinha e fermento, espalhados por todos os cantos da sala. Uma enorme batedeira despacha a massa que fará o pão para a venda ao público. Sacos e cestos acolhem croissants, pães de forma, parolos, pães de leites, broas, toda uma variedade de delícias, bem quentes, a abrirem o apetite. A divisão para a distribuição pelas diversas casas e residências tem que estar pronta às 6h30, hora a que chega o patrão. O padeiro que quis ser veterinário vai fazendo as contas: pães de carcaça – 900 por dia; pão integral – 100; parolos – 150… «Conforme os pedidos», comenta! Há 12 anos desistiu de estudar e dedicou-se ao forno e à farinha. Num espaço exíguo e repleto de máquinas, onde o calor está presente o ano todo, vai passando os seus dias. Arrasta cesto, arrasta tabuleiro, a massa no forno, o pão a cozer, as horas a passar, entregas organizadas, folhas assinadas. Só sai mais logo, às 17h. Mas nunca quis fazer outro horário.

O dia nasce quando o proprietário, o Sr. José, chega. José Manuel sai, atarefado, da cozinha e ajuda a encher a carrinha. O dono é um homem alto, entroncado, de cinquenta anos, cabelo grisalho e bigodes longos. Estava no serviço militar, ainda nas hostes da revolução de Abril, quando o pai morreu e lhe deixou a padaria. Criada em 1927 enquanto forno comunitário, conta 30 anos de padaria/pastelaria Tosta Rica. Nos primeiros tempos, a distribuição levava horas! Entrava-se para fabricar o pão à meia-noite e depois «fazia voltas enormes, com cerca de 100 km por dia», explica o Sr. José. Contudo, actualmente, chegou-se «a um ponto que não compensa». A «concorrência também aumentou muito» e, estando os alimentos a um preço tão elevado, tem clientes «que vão várias vezes por dia à padaria para comprar o mínimo» indispensável.

Faz-se à estrada, a cidade é dele! No início da manhã são poucos os que percorrem as ruas desertas e entregues apenas ao regozijo da bicharada. Quase sem trânsito ou outros impedimentos, as estradas são o palco dos que preparam a madrugada. Dois ou três táxis, carros de distribuição às portas dos quiosques, vagabundos da noite de regresso às suas camas, jovens em festa pelo dia que começa. O Sr. José comenta, a expressão séria e dura em desaprovação, os comportamentos tristes e desajustados dos estudantes nas alturas de festa da cidade. «Tanto lhes dá para dormir a um canto quanto para destruir», constata apontando para uma zona do passeio onde um sinal vandalizado foi retirado. Mas à excepção desses momentos de rebeldia, as viagens são tranquilas. Não encontra quase mais ninguém enquanto sobe e desce ruas, num pára/arranca quotidiano. Os clientes, hoje, são menos e mais restritos. Residências clericais para jovens, lares de idosos, alguns cafés e restaurantes. As estradas estão livres, a solidão quase total permite carregar no acelerador, exceder por um pouco os limites. Poucos rostos lhe dizem «bom dia».

A corrida é rápida e não tem intervalo. O pé no travão, ponto morto, abre a bagageira, pega no cesto, deixa à porta, volta à carrinha, mete a primeira, arranca. Os gestos maquinais, a rotina dos olhares de cuidado. «Isto já quase se faz de olhos fechados», comenta sorrindo, a cadeira desviada do seu grupo, num canto da cozinha de um hotel, para procurar um cesto porventura aí esquecido. O lar de idosos da rua Bernardo Albuquerque, o Hotel Triple na zona de Celas, o Instituto Missionário do Sagrado Coração, o restaurante «O Porquinho» já a sair da cidade, o Lar Teresiano da avenida com nome de rei, o Lar do Sagrado Coração ali bem pertinho, uma casa sem rosto (um cliente a deixar em breve) que não inspira confiança. Pára/arranca, entra/sai, travão/acelerador, estradas vazias a aguardar a freguesia da manhã.

No regresso à padaria, a pastelaria anexa já está cheia, os clientes procuram pequeno-almoço, pão bem quente a sair do forno. Um antigo freguês cumprimenta o Sr. José que, apressado, entra para organizar a casa. A cidade acordou! Não é mais só de alguns, é já de toda a gente. De repente e sem aviso, deixou de pertencer apenas àqueles que a percorrem na rotina do amanhecer. Os sons dos carros, a sonolência dos que se levantam, a alegria dos que nunca chegaram a adormecer. Bem de perto, ao ouvido, uns pequenos acordes de uma melodia eterna. Uma voz doce, de dezasseis anos apenas, ecoando no grande palco do festival da canção.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Narrativas de Macau (5) o meu melhor amigo






Este post foi feito a pensar numa amiga de Portugal e no seu cãozinho de estimação que, a bem da verdade, lá bem para o fim do curso já era o cãozinho de todos nós, tal era a frequência com que ouvíamos falar nas suas peripécias e vicissitudes. O Jolly (espero honestamente que ela não esteja a chorar ao ler isto) terminou uma longa vida na semana passada. Com 15 anos (?) quase que se podia dizer que foi um daqueles sortudos que teve verdadeira vida de Rei, com refeições prósperas em vitaminas, higiene adequada e diária, cuidados de saúde atentos e o carinho que só um dono fiel e carinhoso pode dispensar.
O Jolly era quase cego, tinha problemas nos intestinos (ou em algum outro sítio responsável pelo mau cheiro), era pequenino, castanho torrado e brincalhão. Quem não estivesse à espera da sua entrada inesperada provavelmente seria responsável por uma valente pésada e respectivo trambolhão. Mas o "Jolas" não se importava, habituado que estava a estes desvarios da juventude. No fundo, julgo poder dizer que não era muito diferente da sua dona: feliz com a vida, sem se deixar ir abaixo pelas contrariedades.

O meu Piloto tem cinco anos. É um rafeiro orgulhoso, de pêlo castanho escuro, rente, sempre na paródia quer com amigo quer com ladrão. Só não passa confiança ao gato, o Tareco, siamês bravio e tresmalhado que já perdeu um olho em obscuras e tardias vinganças. O meu gato anda à solta pela minha terra, aterrorizando as galinhas da vizinhança e mantendo bem longe os ratos mais ousados, que no campo, por muito que se cuide, são quase tão persistentes como as baratas aqui da terra. O Piloto está preso à casota, na rua também. Primeiro porque a casa não está cercada e um cão à solta é pretexto para veneno em muitas portas e vários problemas para os donos. Segundo porque assim sabemos que a roupa fica no estendal até estar seca.
Quando o Piloto veio para minha casa era um cachorrinho, ainda por desmamar, que passou vários dias à solta sem nunca fugir. Ainda hoje, volta e meia, o soltamos, e lá vai ele passear, sem nunca descurar a nossa presença, acompanhand0-nos para onde quer que nos dirigemos.

Os cães e os gatos, com os seus feitios travessos e as suas teimosias, são, muitas vezes, os melhores amigos que possuimos. Não fingem, mostram logo o que querem. Aqui no jornal tenho uma colega que em duas mudanças de continente nunca deixou para trás os seus gatos, enormes e pesados, mas as suas grandes companhias. Mas talvez seja uma caracteristica da terra. Para todo o lado onde me dirijo as pessoas vestem os cães, nem que seja com um pequeno casaquinho. É o tipo de coisa que se ouve falar que existe, mas nunca esperamos encontrá-lo como uma realidade efectiva. Principalmente do sítio de onde venho, onde os cães ainda estão presos a casotas, no pátio das casas, no inverno e no verão. Mas se muitas vezes são os nossos melhores amigos, porque não dar-lhes esse mimo? Há pessoas que não merecem a mesma consideração...

No outro dia, no ano novo chinês, ao ver um cão com umas botinhas de bebé e bem agasalhado lembrei-me que a Cláudia compreenderia perfeitamente os mimos aqui dispensados aos animais de estimação. Não ficaria sequer espantada, como eu, por o constatar na maior parte das vezes em que me deparo com animais domésticos. Ao passar por um deles, lembrei-me do Jolly. 

Ias gostar de macau, rapaz...

"Belonging" - Yao Ming




Judite

Eu criei por ti o mundo
Eu criei por ti as sombras

Eu por ti abdiquei do fundo
Da moral e da honra

Nada do que fui será meu
Nada do que fui terá dono


Apenas a ti te devo o Nome
Daquele que hoje envergo

Risquei a outra face
Aquela, de outra vara
Que em doces pedaços
Da maçã comi envenenada

Perdida
Abandonada
Miseravelmente iliminada
Por memórias frustradas
Em histórias
De terceiros

O que resta de mim hoje
Emoldurada
Num quadrado de vidro?

O limite do meu tempo
Padece agora
Em segundos de solidão

Quisera eu ser jovem novamente
Retirando deste meu rosto
A indulgência
Dessa minha subversão

Mas seria Judite, como sempre
No acto
No ser
Na loucura
Na facada obscura
Que infligi
No meu coração

Voltaria ao caminho ordinário
Que do fácil assinou em maiúscula
Mas criou em mim
A astúcia
De mil e uma noites a viver

Tornaria a abrir esse livro
Essa pandora de arrebatamentos
Percorrendo
Em pormenor
Outras lições
Outros incensos  

Em Nada tornaria a chamar-me
Em ti tornaria a colher
Essa brava e certa seiva
Que em enganos
me fez mulher

Pior pecador é o que saboreia
Com requintada dolência
Esse pitéu indescritível
Que é a vã consciência



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Por vezes tarda demais...




in Público

Criminosos nazis: Aribert Heim terá vivido e morrido no Cairo 

Maria João Guimarães



Afinal, o "Dr. Morte" já não estava vivo – há vários anos. Aribert Heim, o médico austríaco que era um dos mais importantes criminosos nazis ainda procurado, terá morrido no Egipto aos 78 anos, segundo uma investigação da estação de televisão alemã ZDF e do jornal norte-americano "New York Times".

Os jornalistas tiveram acesso à certidão de óbito, que indicava que Heim morrera de cancro em 1992.

A morte de Heim tinha sido já anunciada – um antigo coronel israelita afirmara que o tinha morto nos anos 1980, uma afirmação que o Centro Simon Wiesenthal classificou como “pura fantasia” –, tinha mais tarde sido dada como provável, mas depois algumas pistas levaram investigadores do Centro Wiesenthal, que leva a cabo uma operação para deter os últimos criminosos nazis, a acreditar que Heim ainda estava vivo. Tratava-se de uma conta bancária em seu nome, com uma soma considerável, que a família não tinha reclamado.

Uma filha de Heim vive no Chile; achou-se que o "Dr. Morte" poderia estar na zona da Patagónia, já que a América do Sul foi usada por muitos criminosos nazis para refúgio: Adolf Eichmann, o responsável pelo transporte de judeus para campos de concentração, foi raptado por agentes israelitas em 1960 na Argentina; Josef Mengele, o “anjo da morte” conhecido pelas experiências que conduziu no campo de Auschwitz, passou grande parte da vida na Argentina e morreu no Brasil, Klaus Barbie foi extraditado da Bolívia para França.

Heim era o único criminoso nazi do mundo perseguido por uma task-force especial, uma unidade da polícia de Estugarda, dedicada apenas à recolha de informações sobre este caso: era o símbolo máximo para os “caçadores de nazis”. No site do Centro Wiesenthal lê-se ainda a recompensa: 310 mil euros, vindos dos governos alemão e austríaco e do próprio Centro Wiesenthal. O investigador do centro Efraim Zuroff – que ainda recentemente tinha estado na América Latina na peugada de Heim – reagiu em choque à notícia, dizendo que o centro se preparava para aumentar a sua parte na recompensa.

Experiências que testavam os limites da dor
O médico das SS trabalhou, no início da década de 1940, nos campos de concentração de Sachsenhausen, Buchenwald (na Alemanha) e Mauthausen (na Áustria), sendo que as suas mais terríveis experiências foram relatas no último.

Heim assassinou, segundo descrições de pessoas que estiveram em Mauthausen, centenas de pessoas testando os limites da dor, com experiências macabras, por exemplo, com injecções de substâncias como gasolina dadas directamente no coração, retirada de órgãos de pessoas saudáveis, ou operações sem anestesia.

Sabe-se que ficou com pelo menos um crânio de uma pessoa que assassinou como recordação, e conta-se que tinha o hábito de inspeccionar os dentes de quem pretendia assassinar para depois poder oferecer os crânios dos mortos.

Depois do fim da guerra, Heim foi encontrado pelas forças americanas em 1945, e ficou detido pelos militares dos EUA durante dois anos e meio. Mas não chegou a ser acusado por crimes de guerra.

O "Dr. Morte" exerceu como ginecologista depois de ser libertado em 1947, em Bad Nauheim e depois em Baden-Baden, na Alemanha. Em 1962 desapareceu, provavelmente alertado da iminente acusação pelas autoridades da Alemanha Ocidental.

Heim, ou Farid, um homem atlético convertido ao islão
Sabia-se que Heim tinha vivido desde então na Argentina, Uruguai, Espanha e também no Egipto – o Centro Wiesenthal afirma que se pensava até que tinha trabalhado como médico para a polícia egípcia.

Agora, o "New York Times" e a ZDF dizem que Heim se chamou, durante os seus anos no Egipto, Tarek Hussein Farid. Entre as particularidades do homem alto e atlético, que se convertera ao islão, estava uma caminhada diária pelas ruas do Cairo até à mesquita Al Azhar, e um grande interesse pela fotografia – embora fotografasse tudo o que via, nunca se deixava fotografar.

O "tio Tarek", como era conhecido pelos filhos dos amigos a quem costumava levar doces, vivia num hotel no Cairo. O "New York Times" conta que na investigação conjunta com a ZDF a família Duma, proprietária do hotel, teve durante anos guardada uma pasta com ficheiros desde testes médicos até finanças pessoais e documentos vários, e até um recorte de uma revista alemã sobre a operação que o tentava apanhar.

Entre os documentos encontrados no Cairo, estava uma carta que escrevera à revista alemã "Der Spiegel" dizendo que só não tinha sido apanhado pela polícia “por pura sorte” quando já viva no Egipto, comentado uma reportagem na revista publicada em 1979. “Não estava em casa”, dizia Heim na carta – que não se sabe se chegou a enviar à revista

Alguns documentos estavam em nome de Heim, outros de Farid, e um mostrava que Tarek Hussein Farid tinha nascido em Radkersburg, Áustria, no dia 28 de Junho de 1914, o mesmo local e data de nascimento do Dr. Morte.

Mas o próprio "New York Times" admite, no artigo sobre Heim, que o local onde foi enterrado continua a ser um mistério.

O filho, Rüdiger Heim, contou aos jornalistas que quis seguir o desejo do seu pai e doar o corpo à ciência, mas que isso seria difícil num país como o Egipto, onde as regras muçulmanas pedem um enterro rápido. Um dos membros da família Duma, que ficou íntima de Farid, queria enterrar o defunto no jazigo familiar.

Um dos membros da família Doma contou que ele e o filho de Heim subornaram um funcionário do hospital para ficar com o corpo, mas as autoridades descobriram e assim Farid, ou Heim, teria assim acabado por ser enterrado anonimamente, numa vala comum.

E assim, diz o "New York Times", apesar destas novas provas sobre a vida do "Dr. Morte", é impossível fechar definitivamente o seu caso.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Narrativas de Macau (4) Momentos do Ano Novo Chinês











Noites de Música





Ao observador

Numa noite de parcimónia, sete ou oito lobos - criaturas da lua nova - desembocam em alcateia na gruta das mil flores. A ceia é a penumbra, o anseio traduzido em ser. Ela dança num canto poético de sombra iluminada, transparência que apela à essência de uma alma por encontrar. Ele observa, qual sonhador irracional, que a razão é por razão o sentido do querer. A outra soletra, em notas de Dó, os trechos sem nexo de uma sonata sem nome. Os outros gritam, do bravo que é ousado, pois a noite mesmo que negra possui relatos de compassos e de pautas musicais.
Chamaria Guiddo, o D'Arezzo, para me acompanhar nesta minha descoberta simbólica. Da folha em branco pautada em paralelas, sem ritmo, compõe-se uma cadeia sonora. Aquele que pertence a outro, que fez aquilo e fará aquele outro também...

Noites de Música!

Houve tempos em que o silêncio acalentava a alma do sonhador, do pastor sem razão, do naturalista. Em século do tudo, arreia-se o disco como troféu do herói.  Foi com ele que consegui, foi com ele que me afirmei. Todo o resto por ti sofri e nesse reencontro me encontrei.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Um ano a mais


Uma daquelas curiosidades que quase nos escapam, mas que ajudam a compreender a mentalidade deste mundo oriental. Hoje envelhecemos todos mais um ano! Deixo aqui o post do blogue "Bairro do Oriente", com o respectivo link para o Tribuna de Macau.

Por Bairro do Oriente

Hoje celebra-se o ren ri (人日), o sétimo dia do Ano Novo Lunar, o dia em que todos fazem anos. Isto porque de acordo com Dong Xun da dinastia Jin (265-420 AD), autor de "Perguntas e respostas a ritos e tradições" (答問禮俗說), acredita-se que nos seis primeiros dias foram criados a galinha, o cão, o porco, a ovelha, a vaca e o cavalo, e só no sétimo dia o ser humano. Como se já não bastasse o nosso dia de aniversário propriamente dito, hoje envelhecemos todos mais um ano. Portanto, parabéns a todos! Leia mais sobre o assunto aqui no JTM, um texto da autoria de Leonel Barros, especialista neste tipo de curiosidades.