quinta-feira, 14 de maio de 2009

Narrativas de Macau (14) crescer em Macau


Não é lá muito fácil conversar com os chineses. Primeiro porque, obviamente, nem eles falam português nem eu falo cantonense, depois porque, em grande parte, eles 
têm receio de se expressar em inglês. Não critico, eu também teria se não fosse obrigada em empregá-lo todos os dias. Contudo, uma vez por outra, lá encontro um mais conversador, que entre erros de vocabulário, gramática e desentendimentos, lá nos metemos na tagarelice, muitos vezes julgo que, da parte dele, com a mesma curiosidade que eu. As conversas correm tudo e mais alguma coisa. Começamos por Macau, passamos por Portugal ou por um qualquer ponto da China, falamos no trabalho, na cultura e, aqui, inevitavelmente, terminamos a dissertar sobre as diferenças entre o ocidente e oriente. Pergunta bastante frequente: a China é muito diferente de Portugal, não é? (entenda-se que nomalmente isto se estende ao
s países ocidentais no seu geral). Por muito óbvia que possa ser a resposta, tenho sempre grande dificuldade em responder. Talvez por conceber as coisas de maneira um pouco diferente do que a maioria... Como resumia uma rapariga de Hong Kong que conheci no outro dia: "no fundo, somos todos seres humanos".
Quando cheguei a Macau a primeira sensação que tive foi de algo palpável, digamos, que da simples concepção passou a ter formas, cheiros e rostos. E, por incrível que pareça, não se senti de todo deslocada. Assim que sai à rua, tentaram logo impingir-me um hotel. Não é muito diferente da terra onde venho...
Ao longo das semanas e destes quase quatro meses, algumas coisas se têm estruturado, no que uma primeira impressão ainda difusa se transformou em certezas ainda por confirmar. Destas experiências, surge-me a resposta a esta pergunta que insistentemente me colocam: não, Macau não é muito diferente da Europa, da América ou de qualquer outro sítio no mundo. Se não vejamos:
- as pessoas também riem, choram, afligem-se com os outros
- também ficam preocupadas se perdem o emprego, também tentam lutar pelos seus direitos (com maior ou menos à vontade, mas isso são outras histórias)
- as raparigas também são mais protegidas que os rapazes
- as pessoas também são bastante conservadoras
- o pessoal também se irrita e também sabe disfarçá-lo
- a miudagem corre pelas ruas, conversa nos parques e nos cafés
- as pessoas também são desconfiadas com o desconhecido
- também há rituais, dias com significado e tradições, ainda que diferentes das nossas

Poderia passar a tarde toda a dissertar sobre isto que a minha conclusão seria sempre a mesma. Não, não somos assim tão diferentes, bem pelo contrário. E a maior prova disso é que também somos teimosos quando querem contrariar as nossas convicções. Se a comida é diferente...arroz e massa também há em Portugal, mas confeccionado com outros métodos e têmperos. Mas isso porque os produtos tradicionais de lá são diferentes dos de cá. Da mesma forma, ambos se desenrascaram ao longo da História com aquilo que tinham à mão.

A ideia ocorreu-me quando passei por uma série de miudagem e me coloquei, inevitavelmente, a perguntar como seriam os seus tempos livres após a escola. Aqui existem os centros de estudo e aquela coisa bem à China de meter a criançada numa série de actividades extracurriculares. Mas nem era isso que eu questionava. Gostava de saber como seria crescer em Macau, cidade em muitos aspectos, mas não muito diferente do campo onde eu cresci em outros. A garotada também corre para os supermercados para comprar todo o tipo de barbaridades logo a seguir às aulas. Também os vejo a estudar por um ou outro café, ainda que passem mais tempo na conversa. Também os vejo a correr por todos os lados, em conjunto, na brincadeira, numa conversa descontraida que só posso imajinar do que se tratará.

Por isso, talvez de uma forma que muitos não concordarão, a minha resposta à pergunta inicial mantêm-se a mesma. Não, Macau não é assim tão diferente de Portugal. Basta que queriamos compreender as coisas a fundo e não nos ficarmos pelas aparências.  

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