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Ela escrevia. Uma escrita do tipo de escritor psicótico à beira do suicídio, que transporta para o papel todos os devaneios que, com ou pouca lógica, lhe vão atravessando o pensamento. Ela era como eles, os seus personagens, que ignorando o mundo em que viviam - sem interesse, sem história - encontravam no além uma existência bem mais praseirosa e que resultava, sobretudo, da imaginação.
Doces momentosa aqueles! Quando ela passava tardes a fio fechada sobre si, aconchegada na sua superioridade e importância de não poder ser interrompida enquanto fazia outro trabalho que não era o que lhe competia. A chuva na rua, tempestade de vento, folhas, agitação nervosa dos passantes, um torbilhão de rotinas e acidentes que volviam o mundo do avesso, enquanto ela escrevia.
«O pequeno Tomás corria sem descanso na enconta encarpada. Caiu e morreu. Partiu para o céu. E finalmente foi feliz».
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