sábado, 28 de julho de 2007

Crentes

Crentes...
tão perto e tão longe de possuirem o que desejam. Tão lúcidos e tão loucos nas suas conquistas. Tão audazes e tão surdos no que reivindicam. Crentes... De que serve a crença? Uma certeza tão forte que nos ajuda a viver? Um dogma tão sincero inpossível de contrariar? Uma forma de andar no mundo sem ter nada a temer.
Não gosto de crentes. Dizem o que acreditam e recusam-se a ouvir os outros. Dizem comprender, mas apenas compreendem a sua verdade. Dizem descobrir mas apenas redescobrem o que já tinham de seu.
Vou fechar os ouvidos aos crentes. Prefiro a minha própria realidade.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

No banco do jardim

Sabe tão bem

ser o primeiro

sabe tão bem

ser o último

sabe tão bem

o viver verdadeiro

sabe tão bem

viver de súbito



querer ter-te comigo

e não te ter

tens rosto fraco

sem delineação

no dia em que surgiste

apareceste

desmanchas-te

para sempre

o meu coração



ser humana tem destas coisas

ser

por não ser

ao manifesto

eu

que quero ser

todas as coisas

sonho

por ser

segredo honesto



no dia em que morrer

voltarei

e viverei

tudo o que não vivi.

no dia em que morrer

saberei

que tive tudo

o que sempre quis



a beleza

de ter-te

a ti

sexta-feira, 6 de julho de 2007

A lebre e a tartaruga

Criticam-me.
Aprendi a fechar os ouvidos.
Sentimentos cruéis
Feridos
Afloram-me ao coração.
Criticam-me...

Porque cresce como cresce
Uma fúria impensada
De um odor
Profundo
Absurdo
Impuro
Inesperado?
Rasgo desta crueldade que não consigo esbater
Retirar do meu querer
Enfrentar
E derrotar.

Quero picar
- assim, bem picadinha –
esta minha fotografia.
Sorriso idiota!
Meu Deus, porque te comportas
De forma tão estúpida?!
Muda
Sem voz
Atroz
Maledicente...

Mente!
Por favor, mente!
Não digas que estás carente
E volta ao fingimento,
Adorado fingimento,
De que és tudo
E coisa nenhuma
Absurdo de existência
De um ser caprichoso
E odioso
- Uma bruxa!
Daquelas com caldeirão
Sem coração
E um livro de feitiços.

Por favor:
Transformem-me numa tartaruga
E não me deixem a lebre adormecer!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Renascença

Que caminho é este, minha Mãe,
Que visiono na minha frente?
Nas costas já carreguei
Todo o peso do Mundo,
Porém ainda estou perdido
Em ilusões de abundância
De um sonho que nunca virá!

Que caminho é este, minha Mãe,
Para onde já não sei como caminhar?
Dos amai-vos uns aos outros que Ele nos ensinou
Já não sei como rezar!
Fruto do ódio dos homens,
Morri sem vontade de amar!

Que caminho é este, minha Mãe,
Que nas mãos já me brotam os calos da inchada de chumbo
E da terra que não soube lavrar?
Meus pés sangram, meus olhos se fecham,
Minha pele se enruga, minha voz se ressente
E eu não consigo mais procurar...

Contudo, nas páginas do Livro,
Encontrei por fim este caminho,
E com ou sem alma destroçada
Sei já qual terá sido o meu destino
E quero entregar-te a ti, mãe, todo o amor
Que porventura ainda carregue no meu coração!

Quero, contigo Mãe, oferecer
Minha vida
Para ser o caminho de amor
Que meus irmãos
Necessitam

Quero dar as mãos,
Quero ver a cor da vida,
E se na cruz ainda sobrarem dez pedaços da minha carne
Aos abutres os recomendo,
Pois dela agora brotam
Dez sinais de esperança para o Mundo
Que em tempos quis construir

O Sótão - trecho

Os três irmãos permaneceram ali até a chuva diminuir e a lua voltar a brilhar. O sol nasceu, o vento parou, a aurora surgia em todo o seu esplendor e alegria. Tinha sido o fim, o fim de tudo, o fim de todos. O dia amanheceu uma vez mais, anunciando um novo recomeçar. Uma vida que cresceria a partir dali, daquele momento. Uma ânsia de felicidade que acompanhava uma doce paz. Uma paz que a tudo abrilhantava e concedia uma segunda oportunidade para recomeçar. Tê-lo-ia dito, aos três irmãos, aquele Deus a quem Ricardo falara, mas teriam que descobri-lo por si próprios através das suas próprias decisões. Cresceriam, envelheceriam e acabariam por concluir que tudo tivera o seu fim devido. E que Rosa estava onde sempre quisera estar: em paz.
Oh, lágrimas, envolvestes aqueles primeiros dias e a todos martirizastes com o teu sofrimento. Esquecimento! Nunca tal sucederia! Eram a família Melo e recomeçariam um novo dia. Uma, outra e outra vez. O povo, esse apenas aplaudiu. Não a triste sorte de Rosa, mas o fim do seu medo. Quanto ao relógio da torre, deixou-se suicidar e nunca mais ninguém ouviu o seu medonho toque…

O Tear das Moiras - trecho

“Mirina, minha cara, quantas histórias te poderia contar!... Se para os outros fostes rainha, princesa, talvez mesmo Afrodite na tua beleza, para mim representaste a segurança que nunca encontrei em mais ninguém. Tinhas o rosto de uma boneca e um brilho de andarilho que eram só teus. Eras exemplar na tua candura e felicidade, mas sabias ser fiel a ti mesma e aos outros, defensora da lei, crente na justiça, amiga do servo que a ti se ajoelhava pedindo pão. Enquanto viveste soubeste ter nas tuas mãos o teu próprio destino e desdenhaste quem to quis comprar, quem to quis comandar. Riste-te na cara de mais que um pretendente, não tiveste receio de te declarar independente do mundo e nunca ninguém te conseguiu domar. Foste mãe, pai, filha, irmã, esposa e empregada. Foste tu, só tu, e o que quiseste mais ser. Apagaste do zumbido a repressão do teu nome. Amaste como uma louca o que não podias amar, viveste como poucos tudo quanto tinhas a viver. Não renegues quem és, não percas essa tua marca. Olha para ti e procura descobrir – te. És muito mais que uma mera imagem no espelho!”