Crentes...tão perto e tão longe de possuirem o que desejam. Tão lúcidos e tão loucos nas suas conquistas. Tão audazes e tão surdos no que reivindicam. Crentes... De que serve a crença? Uma certeza tão forte que nos ajuda a viver? Um dogma tão sincero inpossível de contrariar? Uma forma de andar no mundo sem ter nada a temer.
Não gosto de crentes. Dizem o que acreditam e recusam-se a ouvir os outros. Dizem comprender, mas apenas compreendem a sua verdade. Dizem descobrir mas apenas redescobrem o que já tinham de seu.
Vou fechar os ouvidos aos crentes. Prefiro a minha própria realidade.

Os três irmãos permaneceram ali até a chuva diminuir e a lua voltar a brilhar. O sol nasceu, o vento parou, a aurora surgia em todo o seu esplendor e alegria. Tinha sido o fim, o fim de tudo, o fim de todos. O dia amanheceu uma vez mais, anunciando um novo recomeçar. Uma vida que cresceria a partir dali, daquele momento. Uma ânsia de felicidade que acompanhava uma doce paz. Uma paz que a tudo abrilhantava e concedia uma segunda oportunidade para recomeçar. Tê-lo-ia dito, aos três irmãos, aquele Deus a quem Ricardo falara, mas teriam que descobri-lo por si próprios através das suas próprias decisões. Cresceriam, envelheceriam e acabariam por concluir que tudo tivera o seu fim devido. E que Rosa estava onde sempre quisera estar: em paz.
“Mirina, minha cara, quantas histórias te poderia contar!... Se para os outros fostes rainha, princesa, talvez mesmo Afrodite na tua beleza, para mim representaste a segurança que nunca encontrei em mais ninguém. Tinhas o rosto de uma boneca e um brilho de andarilho que eram só teus. Eras exemplar na tua candura e felicidade, mas sabias ser fiel a ti mesma e aos outros, defensora da lei, crente na justiça, amiga do servo que a ti se ajoelhava pedindo pão. Enquanto viveste soubeste ter nas tuas mãos o teu próprio destino e desdenhaste quem to quis comprar, quem to quis comandar. Riste-te na cara de mais que um pretendente, não tiveste receio de te declarar independente do mundo e nunca ninguém te conseguiu domar. Foste mãe, pai, filha, irmã, esposa e empregada. Foste tu, só tu, e o que quiseste mais ser. Apagaste do zumbido a repressão do teu nome. Amaste como uma louca o que não podias amar, viveste como poucos tudo quanto tinhas a viver. Não renegues quem és, não percas essa tua marca. Olha para ti e procura descobrir – te. És muito mais que uma mera imagem no espelho!”